terça-feira, abril 12, 2011

Retrofascismo: O Fascismo Viral

Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. (Karl Marx, “O 18 Brumário de Luis Bonaparte”)

O psicólogo alemão Thomas Weber alertou que é grande a possibilidade de que alguém repita o massacre da escola do Rio após a notoriedade midiática do ato inaugural do gênero no Brasil. Afinal, cada imagem das câmeras internas da escola do Realengo que vaza na grande mídia e Internet retroalimenta o sucesso do cálculo viral do seu autor e desse novo fascismo agora vivido como farsa: o Retrofascismo.

No dia 07/04 um jovem entra fortemente armado em uma escola municipal no Realengo (Rio de Janeiro) e produz um massacre com 12 vítimas adolescentes; no dia 09/04 um atirador invadiu um centro comercial na cidade de Alphen aan den Rijn matando sete pessoas e ferindo 11; no mesmo dia, na avenida Paulista em São Paulo, grupos autodenominados como “ultradefesa”, “união nacionista” e “carecas” fazem manifestação  em favor das declarações racistas e preconceituosas do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ). Muitos foram presos pela polícia com pedaços de madeira, metal e “estrelas ninjas”.

Enquanto isso o especialista em traumas psicológicos Thomas Weber (coordenador do atendimento aos sobreviventes do crime ocorrido há dois anos em colégio alemão) em entrevista à Deutsch Welle-World falou que a tragédia na escola carioca “lembrava muito o massacre na cidade de Winneden, Alemanha, e que “ infelizmente, é grande a probabilidade que alguém, agora, tente repetir esse crime no Brasil.”

A princípio, esses fatos são diferentes em termos da natureza, motivação e geografia. Mas há um elemento perturbador em todos eles quanto ao destino final dos gestos de atiradores seriais e manifestações neonazistas: além de mortes e violência, a visibilidade em progressão geométrica por meio de vídeos na Internet e mídias de massas. Uma vocação profunda parece ser o denominador comum desses episódios: aspiram à propagação viral.


Em postagem anterior (veja links abaixo) discutíamos o conceito de “retrofascismo”, conceito criado nos anos 90 pelo cientista político canadense Arthur Kroker para designar o “revival” de práticas fascistóides (intolerância, preconceito, ódio racial, limpeza étnica etc.) em meio a sociedade hipertecnológica e democrática de final de milênio. Kroker via o ressurgimento do fascismo através de traços latentes, surtos ou formações reativas, igualmente alimentadas pela depressão econômica e pelo senso de enfraquecimento do nacionalismo diante da Globalização. Porém, agora com uma novidade: a hipertecnologia que virtualiza o Outro e a si mesmo.

O Retrofascismo: o inegável elemento performático
nos atos fascistóides atuais
Mas, há outro elemento importante no fenômeno de retrofascismo que o torna um fenômeno planetário e merecedor do prefixo “retro” e não “neo” (neofascismo): o inegável elemento performático ou “acting” que torna os atos fascistóides atuais fenômenos destinados à imediata repercussão e visibilidade midiática. Por isso se tornam fenômenos virais, supracondutores, mais próximos ao terrorismo do que à ação política.

Se para Marx os fatos ocorrem na primeira vez como tragédia e na segunda como farsa, estamos diante de um típico fenômeno “retro”, isto é, indivíduos ou grupos que se utilizam de discursos místico-religiosos (fundamentalismo islã e guerra santa) ou neonazistas (“orgulho nacionalista” e limpeza racial) unicamente com álibi ou racionalização para justificar o impulso pela visibilidade viral através das mídias. Discursos de segunda mão que viram pretextos.

Por sua vez, a mídia acaba levando ao pé da letra os discursos desses indivíduos ou grupos (veja as “profundas” análises dos psiquiatras forenses a partir da carta deixada pelo atirador do Realengo) numa vã tentativa de encaixar os fatos dentro de plots pré-estabelecidos pela pauta das redações jornalísticas. Mas, como diria um psicanalista lacaniano, a verdade está em “outra cena”: no destino viral das ações anônimas no mundo contemporâneo.

Retrofascismo e a “lógica do Papai Noel”


Freud considerava que o homem não era um ser racional, mas racionalizante, isto é, capaz de agir a maior parte do tempo por impulso para, depois de cada ato, encontrar desculpas para as consequências. Por sua vez, filósofo francês Baudrillard (1929-2007) vai aplicar essa descoberta freudiana na análise das motivações na sociedade de consumo. Para justificar nossos impulsos consumistas por objetos inúteis e viciantes, sempre temos um “Papai Noel” para racionalizar nossos atos: fumo porque cigarro "X" tem “baixos teores”; pego impulsivamente um produto da gôndola de um supermercado porque, afinal, “ele está na promoção”. E assim por diante.

Assim como não acreditamos em Papai Noel, mas, mesmo assim, falamos nele para justificar o consumo de final de ano, também usamos os slogans publicitários para racionalizar nosso consumo. Não acreditamos nos slogans, mas eles tornam-se úteis para justificar a nós mesmos e aos outros o porquê de estarmos comprando algo tão inútil, fútil ou viciante.

Esta mesma “Lógica do Papai Noel” parece ser aplicável ao fenômeno do “revival” de discursos políticos ou de fundamentalismo religioso numa época tão tecnológica e laica em que vivemos. Se no passado o Nazismo, Fascismo e Guerras Santas foram eventos historicamente trágicos, agora retornam como farsa, isto é, como álibis e racionalizações para práticas e ações que, de tão destituídos de sentido, seus autores sentem a necessidade de encaixá-los em “plots” nostálgicos para dar, quem sabe, um aspecto mais "nobre" ou "idealista".

Comportamentos estereotipados como se tivessem
saído de um filme de ação sobre II Guerra Mundial
ou RAVEs (Russos, Árabes e Vilões em Geral)
Observa-se no comportamento dos atiradores seriais, carecas e neonazistas em geral um comportamento estereotipado, como se tivessem saído de algum thriller ou filme de ação sobre Segunda Guerra Mundial ou “RAVEs” (Russos, Árabes e Vilões Em Geral). Roupas militarizadas, ostentação histérica de símbolos através de tatuagens, camisetas e jaquetas, linguagem (falada ou escrita) robótica, carregada de clichês.

Não parecem ter convicção ideológica no que falam, mas parecem apenas replicar “memes” (para usar um termo da Memética, área de estudos iniciada por Richard Dawkins, que procura estudar a disseminação de ideias na sociedade a partir da metáfora viral). Isso certamente explica o porquê do paradoxo de encontrarmos filhos de nordestinos em grupos de “carecas” ou neonazistas. Ostentam símbolos e discursos do passado muito mais como memes vazios destinados apenas à replicação do que como verdadeiras ideologias ou doutrinas.

Replicação e, simultaneamente, racionalização para justificar o verdadeiro impulso que se esconde por trás dos atos terroristas: a visibilidade viral.

O Fascismo Viral

Este comportamento e discurso estereotipados que parecem saídos da ficção cinematográfica é a face midiaticamente visível de um fenômeno mais profundo: o “ascetismo mundano”. O historiador Richard Sennett cunhou esse conceito para nomear um impulso contemporâneo derivado da ética protestante. Enquanto na ética cristã o ascetismo de um monge é um impulso voltado para o interior (“um monge que se flagela a si mesmo diante de Deus, na privacidade da sua cela, não pensa na sua aparência diante dos outros” – SENNETT, Richard. O Declínio do Homem Público. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 406.), ao contrário, na ética protestante há um componente mundano no ascetismo pela necessidade de demonstrar não somente a Deus, mas aos outros, a sua renúncia e sacrifício, provando a todos ser um merecedor das graças divinas. Isso se insere na cultura narcísica atual como uma performance do eu interior diante dos outros.

Desde o “Mal Estar da Civilização” de Freud sabemos que a Civilização produz a Anti-civilização. A diferença atual é que esse mal-estar não se manifesta mais na intimidade da cela de um monge que se flagela diante de Deus, ou na trágica explosão nazi-fascista canalizada por uma ideologia política e política de extermínio de Estado.

Mark Chapman
(o fã assassino de John Lennon em 1980)
foi o profeta de uma época que, hoje,
acompanhamoso seu amadurecimento 
Se o prestígio simbólico de Deus e do Estado entraram em declínio (com a mercantilização religiosa e o Estado Mínimo dos neoliberais) restam agora as ondas concêntricas das mídias de massas e as redes digitais da Internet. Se as imagens são dotadas de virulência, desde já os atos e ações do mais anônimo Zé Ninguém das massas podem alcançar a notoriedade que dê sentido a uma vida vazia e medíocre.

As antigas formas éticas e morais de auto-realização por meio da renúncia e sacrifício (desde plantar árvores, escrever livros e ter filhos até a autoflagelação íntima diante de Deus) perderam o prestígio simbólico diante da possibilidade pós-moderna de disseminação rápida de um simples e patético gesto.

Web-cams, Youtubes e a produção vertiginosa diária de vídeos sobre fatos mais bizarros e surreais que superam a qualquer imaginação literária abrem a possibilidade da visibilidade viral da anti-civilização.

Quando Mark Chapman, o fã assassino de John Lennon em 1980, justificou que matara seu ídolo para ser “tão famoso quanto ele”, levou ao paroxismo a máxima dos “15 minutos de fama” de Andy Warhol. Foi o profeta de uma época onde, na atualidade, testemunhamos o seu amadurecimento: a violência sem sentido que aspira a notoriedade viral. Por isso, pelo fato de não terem sentido, tanto atiradores seriais ou os autodenominados “neonazistas” necessitam de “papais noeis”, discursos estereotipados e nostálgicos, retros.

Dessa maneira ganha um novo sentido a advertência do psicólogo alemão Thomas Weber de que é grande a possibilidade de que alguém repita o massacre da escola do Rio após essa notoriedade midiática do gesto inaugural.
Afinal, cada imagem das câmeras internas da escola do Realengo que vaza na grande mídia e Internet retroalimenta o sucesso do cálculo viral do seu autor e desse novo fascismo agora vivido como farsa: o Retrofascismo.


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