segunda-feira, outubro 31, 2011

Confirme o Seu Exemplar do Livro "Cinegnose"

Esses são os nossos leitores que receberão um exemplar do livro "Cinegnose":

01- Cristiano Ferreira
02- Fabrício Franco
03- Victor de Oliveira Iemini
04- Thiago Lima
05- Felipe Monteiro Vazami
06- Conrado Moreno
07- Fábio Hofnik
08- Henrique A. Conti

No formulário abaixo de envio de comentários insira os dados de destinatário para o envio do exemplar do livro e... VALEU PELA PARTICIPAÇÃO!

Enviaremos o livro pelo correio em até 7 dias úteis.

Sorteio de Aniversário: 10 exemplares do livro "Cinegnose" para nossos Seguidores

Bom Ano Novo para nossos seguidores e leitores!!!

Para comemorar o segundo aniversário do “Cinema Secreto: Cinegnose” e mais um ano que se inicia estamos lançando o sorteio de 10 exemplares do livro “Cinegnose: A Recorrência de Elementos Gnósticos na Recente Produção Cinematográfica Norte-americana 1995 a 2005” da Livrus Editora (clique aqui para um resumo e conteúdo do livro).


Essas são as regras de participação do sorteio:

1 - Os exemplares serão entregues pelo correio em até 7 dias úteis após o sorteio que será realizado às 18h do dia 17 de janeiro de 2012;

2 - Poderão participar do sorteio somente os seguidores do blog. Portanto, participe  blog "Cinema Secreto: Cinegnose" e torne-se um seguidor (clique no botão "participar desse site" na segunda coluna do blog, aí ao lado desse post);

3 – Para o seguidor iniciar a participação, faça um comentário no formulário deste post de divulgação do sorteio deixando seu nome e e-mail de contato;

4 - As inscrições poderão ser realizadas até as 12h da data do sorteio (17/01/2012). Após este horário todas as inscrições serão descartadas;

5 - Cada participante receberá um numero em ordem crescente de comentários e o sorteio será realizado pelo gerador online de sorteio RANDON ORG. Oportunamente será divulgada a lista de participantes e seus números correspondentes para o sorteio;

6 - Cada  participante poderá realizar apenas uma inscrição. Comentários duplicados serão excluídos;

7 - Após a realização do sorteio o ganhador terá 3 dias para recorrer ao prêmio, realizando um comentário no post de divulgação do resultado do sorteio, para que todos vejam que ele recorreu ao prêmio dentro do prazo estipulado. Caso  o mesmo não entre em contato no tempo estipulado realizaremos novo sorteio entre as pessoas inscritas.

sexta-feira, outubro 28, 2011

Um Manual de Manipulação no Filme "Como Fazer Carreira em Publicidade"

Em plena era triunfal do Neoliberalismo de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, o filme "Como Fazer Carreira em Publicidade" (How to Get Ahead in Advertising, 1989) foi muito mais do que uma voz dissonante. Apresenta de forma didática um verdadeiro manual de táticas de manipulação e de engenharia de opinião pública. Um filme obrigatório para ser visto e discutido em qualquer curso de Comunicação Social.

“Porque sou aquele que tira o fedor de tudo, exceto da merda”. Essa é uma das definições dadas para a Publicidade na provocadora comédia de humor negro “Como Fazer Carreira em Publicidade”. Realizado pela produtora britânica Handmade Films (fundada pelo ex-Beatle George Harrison em 1978 para financiar filmes do grupo de humor Monthy Python), o filme é uma envolvente combinação de sátira, Freud e horror ao som de uma sinfonia de órgão de Gustav Holst e uma estranha versão da música “My Generation” do The Who. Pela sua narrativa repleta de linhas de diálogos, além de Cult o filme acabou se convertendo num verdadeira listagem de técnicas de manipulação da chamada “engenharia de opinião pública”.

No maravilhoso mundo da publicidade inglesa, Dennis Bagley (Richard E. Grant) é um yuppie com alfaiataria impecável e fama de gênio. Arrogante e com uma rotina de luxuosos jantares para amigos promovidos pela sua esposa Julia na casa de campo nos arredores de Londres, inexplicavelmente Bagley tem um súbito bloqueio criativo para uma campanha de creme para espinhas. O prazo final para a apresentação se aproxima, a empresa do creme ameaça retirar a conta da agência com os seguidos adiamentos. Bagley entra em pânico, não consegue dormir, fica paranoico: “não pensarei mais em grandes espinhas, espinhas ocultas ou espinhas de garotas gordas”, repete como um mantra em sua cabeça, mas nada adianta. Começa a ficar cada vez mais agressivo e histérico até o colapso mental.

Munido de escova e sabão, nu e apenas com um avental pretende “limpar” todas as marcas da Publicidade da sua casa. E mais, decide eliminar o mundo publicitário da sua vida, pedir demissão e denunciar para o mundo como o “Big Brother” invadiu nossas casas através da TV. Mas tudo se complica ao descobrir que desenvolve uma enorme espinha no seu pescoço e que ela começa a falar e ficar fisionomicamente cada vez mais parecido com ele. A espinha é rude, desbocada, ameaçadora, ou seja, exatamente o Bagley que ele começou a odiar em si mesmo.

sábado, outubro 22, 2011

A mitologia pop de aliens, sexo, drogas e euforia no filme "Liquid Sky"



Em meio a euforia da onda Punk e New Wave no mundo da Moda do começo dos anos 1980, turbinada pela heroína e cocaína, um pequeno disco voador pousa na cobertura de um prédio em Nova York. Aliens invisíveis estão em busca de uma substância única liberada pelo cérebro humano durante a euforia lisérgica. Mas descobriram que a mente humana também produz a mesma substância durante o orgasmo. Sexo torna-se mortal naquele pequeno mundo de artistas e modelos. Após cinco anos nos EUA, o russo Slava Tsukerman decidiu fazer um filme independente que explorasse a mitologia pop contemporânea sobre sexo, euforia, drogas e alienígenas do espaço sideral. É "Liquid Sky" (1982), um filme sobre exilados e estrangeiros, assim como ele. Um olhar sobre a condição humana contemporânea dominada pelo sentimento de desamparo e alienação em um mundo governado por novos Demiurgos: alienígenas e a indústria do entretenimento.

quarta-feira, outubro 19, 2011

China proíbe "Viagem no Tempo": a experiência cinematográfica pode ser "perigosa"

Autoridades chinesas de mídia proíbem filmes com o tema "viagem no tempo" e exigem que produtores e escritores lançem "produções realistas da Revolução Chinesa". Falta aos chineses abandonar a truculência estalinista para compreender os sutis mecanismos hollywoodianos de controle onde se é capaz de oferecer uma grande liberdade temática, porém confinada pelas rígidas normas de forma e conteúdo. Mecanismos sutis que convergem para o mesmo objetivo das preocupadas autoridades chinesas: evitar que a experiência fílmica produza no espectador uma ruptura com o princípio de realidade.
No ano da comemoração do 90° aniversário do Partido Comunista da China, as autoridades de mídia do país resolveram proibir quaisquer filmes ou seriados que tenham como tema viagens no tempo. Em um país com a maior audiência de televisão do mundo e o mercado de cinema em franca expansão, a decisão foi justificada pelo “desrespeito histórico” que esse tema de ficção científica mostraria (leia notícia aqui).

Um dos maiores sucessos na China, o seriado "Jade Palace Lock Heart" (onde oa protagonista volta à época da China antiga onde encontra o amor e a felicidade - veja imagem acima) é avaliado pela Administração Estadual de Rádio, Filme e Televisão como uma representação da história “frívola e que não pode ser mais encorajado”. E transmitiu a seguinte mensagem para os produtores e escritores do país: “Sigam o espírito do Partido Comunista para celebrar o seu 90o aniversário. Todos os níveis devem se preparar para lançar reproduções realistas da Revolução Chinesa.” Em outras palavras, as autoridades cobram das produções audiovisuais e cinematográficas maior realismo, seja no campo ficcional ou documentário.

Em primeiro lugar, encontramos nessa notícia ecos do chamado realismo socialista de orientação comunista ortodoxa e de inspiração stalinista que dominou a arte e estética soviéticas onde as produções deveriam ser instrumentos de exaltação do regime ao representar de forma “realista” o heroísmo proletário. Por exemplo, diretores russos como Tarkovsky com temas metafísicos e espirituais dentro do gênero sci fi em filmes como “Solaris” (1972) e “Stalker” (1979) sofreram forte repressão do Estado, obrigando o diretor a sair da URSS em 1983.

Mas há algo a mais nessa proibição sobre “viagens no tempo” no cinema e audiovisual chineses. Acredito que a justificativa do “desrespeito histórico” é um mero pretexto para exercer um controle que há muito tempo Hollywood já fez ao enquadrar suas produções desde o final da fase dos filmes “slapstick”: a imposição da verossimilhança ou “realismo cinematográfico” na narrativa para impedir que a experiência cinematográfica possa produzir o “acontecimento comunicacional”, isto é, uma experiência que produza a transformação do espectador, a transcendência ou a possibilidade de ruptura psíquica com a rotina do dia-a-dia após sair do cinema.

sábado, outubro 15, 2011

A Transparência do Mal em "Saló ou os 120 Dias de Sodoma" de Pasolini

Assistir ao filme “Saló ou os 120 Dias de Sodoma” (Salò o Le 120 Giornate di Sodoma, 1975) de Pasolini é uma experiência no mínimo incômoda, mesmo hoje quando a nossa sensibilidade diante do Mal se tornou apática com tanta exposição de sexo e violência na indústria do entretenimento. Por que 36 anos depois as cenas de “Saló” ainda nos causam repulsa e horror? Talvez porque tenham sido as cenas que melhor conseguiram expressar em uma narrativa fílmica a radicalidade do Mal exposta pela obra de Marquês de Sade – o Mal transparente, aquilo que não pode ser explicado ou deduzido, porque originado da própria Razão e dos seus instrumentos que deveriam impedi-lo de existir.

A primeira vez que assisti ao filme “Saló ou os 120 dias de Sodoma” de Pasolini foi dentro da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo no extinto cine Paramount (hoje Teatro Abril) lá pela década 1980. Naquela noite, enquanto o filme era exibido, vi espectadores correndo para o banheiro com as mãos levadas à boca, aparentemente com ânsia de vômito; muitos simplesmente se levantando e indo embora e os demais com os rostos crispados de horror e repugnância (o meu, inclusive). Resultado: restaram ao final das quase duas horas de projeção eu e mais quatro espectadores.

Em meio a “snuff movies”, “slasher movies”, “pornôs hardcore”, “nazi-exploitation” etc. atuais que acabaram moldando uma sensibilidade mais fria e apática diante do Mal, Saló permanece um filme instigante, provocativo e chocante. Por que? Olhando em perspectiva o conteúdo das diversas cenas, encontramos até muitos cenas que se tornaram clichês presentes nos gêneros cinematográficos citados acima. Mas, mesmo assim, as sevícias, torturas e mutilações em “Saló” ainda horrorizam, mas de uma forma radical: certamente este filme de Pasolini foi o que melhor soube representar a radicalidade do Mal proposta pela obra de Marquês de Sade – a reversibilidade do Mal e o Inumano.

Isto é, o Mal que não pode ser racionalizado, explicado, deduzido, porque originado da própria Razão e dos seus instrumentos que deveriam impedi-lo de existir.

O filme segue fielmente a obra “Os 120 dias de Sodoma” de Marquês de Sade, associando a narrativa sadeana ao momento histórico da criação de uma nova república fascista na cidade setentrional de Saló em 1943 por Mussolini após sua deposição do governo do país com a invasão das tropas aliadas e a revolta popular.

Em Saló, quatro poderosos (o Duque, representando a nobreza; o Bispo, a Igreja; o Presidente, o Estado laico; o Magistrado, a corrupção e a parcialidade da Justiça) decidem juntar sua fortunas para realizar a maior orgia já concebida pela mente humana: em um castelo isolado é formado um grupo de 8 garotos, 8 garotas, 4 narradoras, 4 putas velhas, 8 garanhões, 4 criadas, 6 cozinheiras e as 4 filhas dos libertinos, casadas entre eles.

quarta-feira, outubro 12, 2011

O "Inumano" no Filme "A Centopeia Humana"

Se os gêneros ficção científica e Terror exploram principalmente os temas do Pós-Humano e do Desumano, em "A Centopéia Humana" do holandês Tom Six temos uma novidade: o tema do Inumano, poucas vezes trazido para as telas do cinema pela sua maneira radical e perturbadora de encarar o Mal. Não se trata mais de impingir o horror, sofrimento e a morte final à vítima. Mas retirar dela toda sua humanidade ao fazê-la regredir à condição animal por meio dos próprios intrumentos da evolução humana: Ciência, Técnica e Razão.

O tema do Pós-humano é recorrente no cruzamento entre ficção científica e terror: desde a estória de Frankenstein, passando por filmes como “Robocop” (RoboCop, 1987) para chegarmos aos pesadelos do diretor Cronenberg como em “Videodrome” (1983) e eXistenZ (1999) : fantasias cabalísticas onde o homem quer ser Deus e tenta produzir vida a partir de um “golem”; seres híbridos de carne, sistemas eletrônicos e servomecanismos para superar as limitações corporais humanas; interfaces biológicas com redes digitais onde o Eu transcenda o corpóreo etc.  No pós-humano há o desejo gnóstico-cabalístico da superação das limitações existenciais e corporais humanas (finitude, temporalidade e senso de fragilidade corporal). O elemento do horror é a presença da ambiguidade do pós-humano, a diluição das fronteiras entre homem e máquina, espírito e matéria e orgânico e inorgânico. E horror de vermos o inorgânico e sem vida ganhar consciência e dominar o espírito humano.

Já o Desumano está no campo da moralidade e da “hermenêutica do mal”. Torturas, humilhações e assassinatos são impingidos por um serial killer, um monstro sobrenatural ou um psicopata. Pense num filme como “Jogos Mortais” (Saw, 2004): o vilão aprisiona pessoas em elaborados dispositivos e jogos para punir atos pregressos imorais ou anti-éticos das vítimas. Ou ainda, sanguinário personagem  Alex do filme “Laranja Mecânica” (Clockwork Orange, 1971) que sabe que suas atrocidades são puníveis pelo Estado e Polícia. Teme a lei e foge para não ser preso. Alex e o Jigsaw são, portanto, imorais.

O tema do Desumano conta ainda com uma “hermenêutica do Mal”: psicopatas como Jason e Fred Krueger são assassinos seriais e cruéis por decorrência de traumas do passado que marcaram para sempre suas personalidades. As narrativas procuram racionalizar o Mal buscando uma explicação no psiquismo humano.

Portanto, podemos denominar a condição da vítima como “desumana” porque há ainda no horizonte referências como o Humanismo, a Ética e a Moral.

A novidade do filme “A Centopéia Humana” (The Human Centipede - First Sequence, 2009) é trazer para o gênero terror o tema do Inumano: não se trata mais de subjugar, humilhar ou destruir o psiquismo da vítima pelo horror, medo ou tensão. E, muito menos, se trata de querer punir a vítima com o sofrimento e a morte final. Trata-se muito mais de anular qualquer humanidade ao fazer a vítima retroceder ao estágio animal, morficamente falando e não no sentido figurado. 

sábado, outubro 08, 2011

Em "Contraponto" a "Alice" de Lewis Carroll se encontra com "Psicose" de Hitchcock

"Contraponto" (Tideland, 2005) é uma mistura de "Alice no País das Maravilhas" de Lewis Carroll com "Psicose" de Hitchcock. Com uma atmosfera sombria, agressiva e crua com a tradicional câmera inquieta com ângulos delirantes, o ex-Monty Python Terry Gilliam parece querer fazer um acerto de contas com a sua geração:se um dia os jovens de Maio de 1968 pretendiam que a imaginação chegasse ao poder, agora a imaginação pode criar monstros e pesadelos numa geração marcada pela "ausência dos pais".  

Ex- integrante do histórico grupo inglês de humor o Monty Python, Terry Gilliam é de uma geração cujo senso de humor estava sintonizado com a cena vivida à época: contracultura, movimentos estudantis e utopias revolucionárias na década de 60. Seu humor anárquico e “non sense” trazia a pretensão secreta de a arte e a estética desmontar o poder e todos os pilares conservadores da sociedade. Em outras palavras: a “imaginação no Poder”, palavra de ordem da geração da Revolução Estudantil de Maio de 1968 na França.

Com a extinção do Monty Python, a carreira cinematográfica como diretor continuou a levantar essa bandeira em filmes como “Brazil – O Filme” (Brazil, 1985)” e “As Aventuras do Barão de Munchausen” (The Adventures of Baron Munchausen, 1988), sempre com personagens e temas recorrentes: o herói proveniente de um universo onírico que consegue, a partir da força dos sonhos e fantasias, enfrentar uma realidade opressiva e derrotar demiurgo e sistemas autoritários.

Mas tudo isso acaba com o filme “Contraponto” (Tideland, 2007) onde Gilliam parece fazer um acerto de contas com a sua geração ao mostrar que os sonhos e fantasias podem se transformar no contrário, isto é, escapismo e negação da realidade. O psicodélico universo onírico pode se transformar em sombrios pesadelos. Algo em torno da atmosfera que inspira o filme “Contraponto”: um cruzamento entre “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll com “Psicose” de Hitchcok.

Ao apresentar como um conto de “terror poético” a estória de uma menina que vive num mundo escapista de fantasias para negar a realidade de pais negligentes e viciados em heroína, Terry Gilliam insere o filme no contexto de discussões sociológicas sobre a chamada “geração sem pais”, os chamados “baby boomers”, e os reflexos em gerações posteriores.

quarta-feira, outubro 05, 2011

O ceticismo gnóstico de Jean Baudrillard (parte 3): a "Pura Aparência" em "Show de Truman"

Nesta postagem final da trilogia sobre o ceticismo gnóstico de Jean Baudrillard alcançamos a secreta gnose do seu pensamento: a busca pela “pura aparência”. Se a realidade é uma ilusão e todos os discursos das ciências e das mídias são mobilizados para simular um efeito de realidade que crie uma aparência de sentido às instituições políticas, econômicas e sociais, então a nossa “última chance” é a “pura aparência”: combater a aparência que simula sentido com outra aparência, tão ilusória quanto a “realidade” que nos cerca. O filme “Show de Truman” talvez seja aquele que mais didaticamente apresenta esta estratégia fatal que explodiria os efeitos de realidade dos discursos dominantes.

Certa vez em um Simpósio Internacional de Comunicação na USP, lá pelo final da década de 1980, após uma palestra de Baudrillard, a comissão organizadora quis levá-lo para um almoço e posterior passeio pela cidade. Sabendo que Baudrillard já havia visitado São Paulo anteriormente, perguntaram-lhe o que gostaria de conhecer dessa vez. Perguntado, Baudrillard falou: “Quero ver bundas!”. Todos ficaram atônitos, sem saber bem o que o francês queria dizer, enquanto ele ria de todos. Reformulada a pergunta, Baudrillard foi ainda mais enfático: “Quero ver bundas, bundas do tamanho de um prédio!!!”

Depois dele se divertir da cara de espanto de todos, Baudrillard explicou que queria fotografar (a fotografia era uma das suas paixões) os outdoors que ocupavam laterais inteiras de prédios ao lado do chamado “minhocão” (o imenso elevado “Costa e Silva” no centro da cidade). Literalmente viam-se bundas do tamanho de um prédio em diversos outdoors de roupas íntimas femininas. As fotos dessas paisagens urbanas bizarras de São Paulo eram famosas na Europa e Baudrillard queria realizar suas próprias fotos delas. 

Esse exemplo demonstra a obsessão de Baudrillard em refletir sobre o que ele chamava de “profundo abismo das aparências", isto é, e como as imagens ocultam o fato de que elas não têm nada a esconder: por trás daquelas bundas nada encontramos, a não ser um “dublê de corpo” que talvez nem seja do sexo feminino. As imagens nada revelam, a não ser de que o real é tão ilusório quanto as aparências que ele produz .

domingo, outubro 02, 2011

O Ceticismo Gnóstico de Jean Baudrillard (parte 2): os simulacros nada têm a esconder

Sucesso de público e de crítica, as palavras “simulacro” e “simulação” foram a parte mais mal compreendida do pensamento de Jean Baudrillard. Ele jamais procurou encontrar a “realidade” ou a “verdade” por trás das ilusões do mundo como faz a crítica ideológica tradicional. Seu projeto era de um ceticismo mais radical: denunciar os discursos que afirmam dizer sobre alguma coisa, mas que, na verdade, apenas escondem que nada têm a esconder, seja na Política, Economia ou na Mídia.

Simulacro e simulação tornaram-se os mais conhecidos conceitos dentro do pensamento de Baudrillard, chegando até ao mainstream hollywoodiano na célebre passagem do filme Matrix (1999) onde o protagonista, Neo, esconde programas piratas dentro de um livro oco cuja capa é do célebre livro “Simulacros e Simulações”. Talvez o sucesso de público desses conceitos se deva menos à compreensão dentro da teoria não materialista da linguagem defendida pelo autor e, muito mais, pela sua tradução feita pelo tradicional discurso da crítica da ideologia como falsa consciência. Muitos autores ignoram a idéia da simulação original, preferindo interpretar a bem conhecida três ordens do simulacro através de uma leitura ortodoxa como abaixo:
“Baudrillard argumenta que há três níveis na simulação, onde o primeiro nível é uma óbvia cópia da realidade e o segundo nível uma cópia tão boa que suspende as fronteiras entre realidade e representação. O terceiro nível é a da produção da realidade sem se basear em qualquer elemento do mundo real. O melhor exemplo é provavelmente a ‘realidade virtual’ onde um mundo é gerado por meio de linguagens ou códigos.”[1]
É como se, no início existisse a realidade e o signo que fizesse sua cópia por meio da representação.  A partir daí é como se a espiral dos simulacros e da simulação se apossasse dos signos, corrompendo-os, instaurando uma representação ideológica do mundo. O simulacro e a simulação, além de serem tomados como sinônimos, passam a ser interpretados como uma disjunção entre forma e conteúdo, infraestrutura e superestrutura. Ou seja, estes conceitos são aprisionados dentro da crítica da dissimulação, da manipulação,  da mentira, da denúncia contra todas as formas de falsa consciência.

Porém, como vimos até aqui, não existe uma teoria da representação em Baudrillard. Portanto, não há propriamente uma crítica ideológica, pelo menos não no sentido de crítica à falsa consciência.

sábado, outubro 01, 2011

O Ceticismo Gnóstico de Jean Baudrillard (parte 1)

Falecido em 2007 aos 77 anos, intelectual iconoclasta e provocador, influenciou o cinema (homenageado no filme "Matrix" na sequência do livro oco cuja capa é o título de uma obra de Baudrillard), televisão, web art e duas gerações na sociologia. Mas, o que é pouco conhecida, é a matriz gnóstica do pensamento no qual se baseia suas obras das três últimas décadas. Para ele a realidade do mundo fora seduzida pelo Mal e acreditava na impossibilidade do conhecimento através de algum princípio racional ou materialista.

Sempre o pensamento de Baudrillard esteve associado a uma crítica materialista da sociedade de consumo e da cultura midiática. Se nos primeiros livros encontramos um pesquisador sóbrio e cuidadoso com os conceitos envolvidos nos estudos sobre signos e a semiologia, nas três últimas décadas encontramos livros de um pensador com insólitos paradoxos, provocações, aforismas hiperbólicos, paroxismos.
De repente Baudrillard parece ter sido tomado por um “terrorismo metafísico”: “Para mim a realidade do mundo foi seduzida, e isso é o que é fundamentalmente maniqueísta em meu trabalho. Tal como os Maniqueos, não acredito na possibilidade de conhecer o mundo através de algum princípio racional ou materialista  – daí a diferença entre o meu trabalho e o processo de evocar a dúvida radical em Descartes”[1]

Desde a década de 1980 Baudrillard empreendeu uma rigorosa demolição, através de um ceticismo radical, de todo e qualquer referencial empírico ou real seja no pensamento científico ou na própria sociedade: a Economia se converte em ritual Potlach; a escala de necessidades humanas que justificaria a sociedade de consumo jamais existiu; Guerra do Golfo ou o atentado aéreo ao WTC em 11 de setembro de 2001 foi um “não-acontecimento”, simulacro midiático; o real foi assassinado através de um “crime perfeito”: a hegemonia do imaginário da presunção da catástrofe, mais mobilizador do que o imaginário do progresso.

Baudrillard viu por todos os lados a “sedução da realidade do mundo” pelo Mal. É evidente nessa lógica a influência do pensamento gnóstico, principalmente de Mani como demonstra essa outra declaração: O mundo não é dialético, ele tende para extremos, não para equilíbrio, tende para o antagonismo radical. Esse é também o princípio do Mal.”[2]

Portanto, vamos iniciar nessa primeira postagem uma investigação sobre as conexões entre o pensamento de Jean Baudrillard e o Gnosticismo.

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