domingo, janeiro 29, 2012

Filme "The Man From Earth" Desconstrói a Religião e a Ciência

Um filme indispensável tanto para ateus, religiosos, gnósticos, agnósticos ou cientistas. O filme "The Man From Earth" é composto por uma narrativa de 90 minutos de puro ceticismo e desconstrução tanto da Religião quanto da Ciência. Um homem revela ter 14 mil anos de idade, mas tudo o que um grupo de cientistas e professores descobre é um ser com a mesma consciência de um homem comum que luta pela sobrevivência, sem qualquer lição metafísica ou teológica a oferecer.


O que o leitor pensaria se conhecesse alguém que dissesse ter 14 mil anos. Certamente duas opções viriam à mente: ou essa pessoa teria sérios problemas mentais ao acreditar na própria mentira ou pensaria estar diante de uma criatura que deteria potencialmente todo o conhecimento humano e universal, um ser de imensa sabedoria. Quase uma divindade.

Mas o filme “The Man from Earth” (2007) não vai por nenhum desses caminhos. Em um roteiro instigante de Jerome Bixby (roteirista e escritor de episódios de séries clássicas de sci fi como “Jornada nas Estrelas” e “Além da Imaginação”), o filme surpreende ao narrar a reação de um grupo de cientistas ao se deparar com um ser imortal destituído de qualquer preocupação metafísica ou teológica sobre sua condição. Ele apenas passou 14 mil anos sobrevivendo.

Além do brilhante roteiro, o filme “The Man From Earth” ganhou fama também pela permissão pública do seu produtor para que qualquer cinéfilo fizesse download da Internet. Ou seja, o filme é uma daquelas pequenas pérolas independentes que surge na indústria do entretenimento e que rapidamente se transforma numa obra cultuada.

O filme nos apresenta a estória de John Oldman (David Lee Smith) um professor universitário que inesperadamente decide se mudar para um destino ignorado. De improviso, organiza uma despedida com outros amigos professores da universidade em sua casa de campo. O grupo é formado por um biólogo, um arqueólogo, um historiador, uma especialista em textos bíblicos, um antropólogo e um psicólogo. Uma audiência perfeita para a grande revelação de John: ele vive há milhares de anos, desde a era paleolítica, sem envelhecer e com a mesma aparência em torno dos 35 anos.

quinta-feira, janeiro 26, 2012

Pink Floyd: A "Bad Trip" da Cultura Psicodélica


Comparando  os dois momentos da banda Pink Floyd representados pelo filme "Pink Floyd The Wall" de Alan Parker e o documentário “The Pink Floyd and Syd Barrett Story” é flagrante o contraste entre o imaginário pulsante, enérgico e desafiador das origens da banda na era psicodélica e a narrativa amarga e pessimista da trilogia final ("Animals", "The Wall" e "Final Cut"). A perda da dimensão épica do rock psicodélico, cujas armas eram o surrealismo e o “non sense”, derrotada pelo princípio de realidade: o indivíduo que, impotente, só lhe resta a vitimização, auto-indulgência e pena de si mesmo.


O filme “Pink Floyd The Wall” de Alan Parker está fazendo 30 anos. Embora o baixista e líder do Pink Floyd Roger Waters tenha ficado insatisfeito com essa adaptação cinematográfica do álbum duplo “The Wall” de 1979, o filme tornou-se um Cult, consenso de crítica entre os fãs da banda e críticos. A música “Another Brick in the Wall” virou um hino libertário e o solo de guitarra de Guilmour na lindamente triste “Confortably Numb” é até hoje arrepiante.

Mas depois de três décadas é necessário um olhar em perspectiva tanto para o filme como para o álbum. Principalmente depois de se assistir ao documentário inglês “The Pink Floyd and Syd Barrett Story” (2003), onde é contada a história de Syd Barrett, membro fundador da banda e protagonista indiscutível da cultura psicodélica. É interessante compreender as origens do Pink Floyd dentro do experimentalismo underground da cultura psicodélica na década de 1960 e como se tornou como banda de frente do rock progressivo e rotulado como “dinossauro” pela emergente cultura punk/new wave à época do lançamento tanto do álbum quanto do filme de Allan Parker.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

Deus Está Morto no Filme "Zardoz"

“Esquisito”, “pretensioso”, incompreensível”, “kitsch”. Mesmo após 38 anos muitos que assistem ao clássico de ficção científica  “Zardoz” (1974) ainda têm algumas dessas opiniões. Mais ainda, muitos não conseguem compreender o tom da narrativa: será uma sátira, um drama, uma tragicomédia? Um filme estranho por apontar para um novo modelo de ficção científica para a época, não mais utópico ou distópico, mas “hipo-utópico”: chegamos ao futuro e ele não mais existe. Uma elite encontra a imortalidade e descobre que Deus é um artifício: uma cabeça de pedra voadora que comanda o extermínio de humanos para extirpar o mal da face da Terra.

O filme dirigido por John Boorman ("O Exorcista II-O Herege" e "Excalibur") é marcado por duas imagens bizarras: uma gigantesca cabeça de pedra voadora que diz ser o deus Zardoz e Sean Connery (à época com 43 anos) fazendo um personagem brutal, trajando uma espécie de tanga vermelha, um par de botas até os joelhos, com uma arma na mão e uma longa cabeleira com trança, ou seja, o oposto da imagem sofisticada e sexy que o imortalizou como James Bond nos anos 60.

Após ver o fracasso do projeto de uma adaptação cinematográfica do livro de J.R.R. Tolkien “O Senhor dos Anéis”, John Boorman escreveu o roteiro de “Zardoz” carregado de simbologia mística e esotérica e com uma ácida crítica ao papel da religião como forma de dominação. Com um orçamento baixíssimo e roteiro repleto de sequências e ideias surreais, o resultado foi uma direção de arte que chega ao mal-gosto e até roupas de extras tingidas para reaproveitar os figurinos. 

Para compreendermos o porquê da estranheza que "Zardoz" provoca até hoje, temos que inserir o filme dentro de um especial tipo de subgênero sci fi pós-moderno: o que poderíamos chamar de “hipo-utopia”, para distinguir de termos como distopia e da própria utopia.

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Uma Semiótica do Poder das Imagens

Uma imagem vale mais que mil palavras. Essa frase atribuída a Confúcio resume a natureza do mais potente aparato de transmissão: a imagem. Se Confúcio referia-se ao poder dos ideogramas , forma de comunicação simbólica onde duas ou mais imagens são fundidas em um conceito, no Ocidente a imagem viveu uma verdadeira saga a partir das origens rituais até ser convertida em feitiço ou fetiche - da religião à moderna Publicidade e Propaganda.

A genesis das imagens está nos rituais de morte e fertilidade, vida e renascimento. A imagem como manifestação do invisível, a representação de quem morreu para imortalizá-lo. Uma constelação de palavras gravita em torno do conceito de imagem, todas elas derivadas dessas origens: simulacrum (o espectro, fantasma), Imago (a máscara de cera, reprodução do rosto do defunto), eidolon (ídolo, a alma do defunto que sai do cadáver, de natureza tênue e, por isso, ainda corpórea, espectro). Todas essas ideias vão se aglutinar depois no conceito de retrato, imagem.

Sendo ela simultaneamente uma vitória sobre a morte e perpetuação pública de um ser ativo e radiante, a imagem abre as portas para a divinização: para o homem do Ocidente é a sua melhor parte, seu eu imunizado e posto em lugar seguro. A glória do herói grego, a apoteose do imperador romano e a santidade do papa cristão representados por imagens (estátuas, moedas e vitrais) ao longo da História atestam esse poder de transmissão não só da divindade ou imortalidade, mas, também, da crença e do Poder.

Se pretendemos fazer uma semiótica não da imagem em si (já farta na bibliografia da área), mas do seu poder na transmissão de crenças, temos que analisá-la em um duplo aspecto: o religioso e o semiótico, isto é, entender como a exploração religiosa vai fazer o ícone regredir para as formas mais míticas e mágicas da imagem ao explorá-la como propaganda. Indo além, entender como as modernas formas de Propaganda como a Publicidade são novas versões do princípio religioso da exploração das imagens.

sexta-feira, janeiro 13, 2012

Em "Dead Set" o Reality Show Ri de Si Mesmo


O gênero “reality show” já consegue rir de si mesmo? É o que parece quando descobrimos que a produtora holandesa Endemol, cujo maior produto é o “reality show”, produziu a série da TV inglesa chamada “Dead Set” (2008) onde uma epidemia transforma o mundo em zumbis... menos os participantes e a produção de um Big Brother que nada sabem o que está acontecendo fora dos muros da emissora. Combinando extrema violência, ironia e humor negro, a série faz referências às principais críticas e indignações contra o gênero. Se a Endemol consegue rir de si mesma é porque por trás há duas estratégias bem definidas: “Agenda Setting” e “tolerância repressiva”.

quarta-feira, janeiro 11, 2012

O Mito do Vampiro Chega à Maturidade no filme "Deixe Ela Entrar"

Esqueça filmes como “Crepúsculo” onde vampiros com “sex appeal” seduzem adolescentes. Aclamadíssimo em Festivais de cinema Fantástico, o filme sueco “Deixe Ela Entrar” (Let The Right One In, 2008) igualmente narra uma estória de amor impossível entre adolescentes, mas rompe com os principais cânones do gênero ao apresentar o vampiro não mais como encarnação, mas como representação do Mal: o vampiro abandona a adolescência dos “shopping centers” para ingressar na rotina da adolescência repleta de ambiguidades, indecisões e desejos de vingança.

Os dois principais arquétipos dos contos góticos foram criados por autores britânicos no século XIX: “Frankenstein” de Mary Shelley (expressando os medos de um futuro onde a ciência usurparia o poder divino de criar a vida) e “Drácula” de Bram Stocker (expressando o medo de supertições e tabus do passado que invadem o presente para destruir a vida por meio da contaminação).

Atualmente, o arquétipo do vampiro está em ascensão no cinema. Em um primeiro momento tivemos as adaptações cinematográficas clássicas e fiéis ao livro de Bram Stocker (o vampiro como encarnação do Mal que invade a sociedade vitoriana pela contaminação do sangue) até os filmes ingleses de terror da Hammer nos anos 60. Mas a partir do filme “Entrevista com um Vampiro” nos anos de 1990, a figura do vampiro começa a ser investida de "sex appeal" ao ser vivida por atores como Tom Cruise e Brad Pitt: a sedução do vampiro através do olhar e a mordida e sucção do sangue como uma metáfora erótica e sexual.

A partir daí temos duas linhas cinematográficas pelas quais o mito do vampiro é atualizado: de um lado a vertente cômica como, por exemplo, o horror cômico-trash inglês “Matadores de Vampiras Lésbicas” (Lesbian Vampire Killers, 2009); do outro, o blockbuster “Crepúsculo” (Twilight, 2008) onde uma adolescente mortal apaixona-se por um vampiro que consegue andar à luz do dia, pálido e com um estranho ar perdido e frágil (fascinante para adolescentes pois, afinal, é assim que eles se veem). Seja por um caminho ou pelo outro, o Mal é erotizado e o ataque sanguinário vira uma espécie de cópula sado-masoquista.

Apesar disso, ambas as correntes respeitam o principal código estabelecido sobre vampiros: eles continuam sendo a encarnação do Mal, ou pela culpa (a imortalidade como uma maldição) ou como a própria encarnação da maldade (matar como manifestação do prazer pelo Poder).  Essa é uma visão religiosa do Mal presente desde Bram Stocker: o vampiro como uma tentação demoníaca que, por meio da hipnose, vem despertar nos seres humanos (e principalmente mulheres) seus impulsos mais primitivos seja na época vitoriana ou na dos shopping centers: entregar o próprio pescoço para ingressar no imortal reino do Mal. Em outras palavras, entregar-se ao pecado e ser punido por isso.

Porém, um filme vai desafiar esse código estabelecido sobre o Mal. É o filme sueco “Deixe Ela Entrar” (Let The Right One In, 2008) uma adaptação do livro homônimo de John Ajvide Lindqvist e dirigido por Thomas Alfredson. Não é à toa que o filme foi aclamadíssimo pela crítica e pelos fãs do cinema Fantástico: embora seja comparado com “Crepúsculo” por incorporar o amor entre adolescentes mortais e imortais, o filme subverte a convencional visão religiosa do Mal: o vampiro é retratado apenas como sintoma do Mal diluído nas relações humanas e na própria sociedade. Ele não é mais uma encarnação, mas uma representação do Mal.

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Gnosticismo é o "Jazz" das Religiões

Certa vez Louis Armstrong disse a um jornalista: "Cara, se você for perguntar o que é o Jazz, então nunca saberá". Algo semelhante ocorre com termos como "Gnosticismo" ou "Gnose" na história das religiões: devem ser mais experimentados do que compreendidos. Pelas suas próprias origens sincréticas (uma fusão de platonismo, neo-platonismo, estoicismo, budismo, antigas religiões semíticas e cristianismo), o Gnosticismo poderia ser facilmente comparado ao Jazz que, pelas suas origens, também foi resultante de intensas misturas e adaptações.

O que é Gnosticismo? Seja pelo ponto de vista histórico (conjunto de seitas sincréticas de religiões iniciatórias e escolas de conhecimento nos primeiros séculos da era cristã) ou pelo ponto de vista dos renascimentos na era moderna (grupos e, por analogia, a todos os movimentos que se baseiam no conhecimento secreto da “gnose”) são definições que podem levar à generalização e confusão.

Mesmo com a descoberta, em 1945, de textos gnósticos do século IV em Nag Hammadi (Egito), muitos concordam que o tema ainda continua com muitos pontos dúbios.

Hoeller e Conner preferem abordar o Gnosticismo como uma “atitude da mente” ou uma “predisposição ideológica” que surge em ambientes de grande agitação artística e cultural. “Se você é um artista sério, já é meio gnóstico”, afirma Conner. Nessas condições, o Gnosticismo está fadado a um novo renascimento.

Mas há um consenso: o Gnosticismo e seus derivados esotéricos nunca fizeram parte da cultura sancionada pelas instituições. Desde o triunfo do cristianismo ortodoxo após Constantino, a tradição gnóstica entrou para o subterrâneo dos movimentos sociais. Bem sucedido em seus canais subterrâneos, eventualmente ofereceu a pensadores revolucionários e artistas subsídios importantes para críticas aos sistemas opressivos políticos, sociais ou culturais.

É por esse caminho que Miguel Conner (escritor norte-americano de sci fi e editor/apresentador do programa radiofônico "Aeon Bytes Gnostic Radio" - programa de debates e entrevistas semanais sobre temas do Gnosticismo, literatura e cultura pop) vai focar o Gnosticismo ao compará-lo ao Jazz no campo musical. Impossível de ser definido, o Jazz escapa a qualquer descrição ou análise mecanicista. Para Conner, o Gnosticismo se enquadraria nessa mesma natureza. Pelas suas próprias origens sincréticas (uma fusão de platonismo, neo-platonismo, estoicismo, budismo, antigas religiões semíticas e cristianismo), o Gnosticismo poderia ser facilmente comparado ao Jazz que, pelas suas origens, também foi resultante de intensas misturas e adaptações.

sábado, janeiro 07, 2012

Filme "Margin Call" despolitiza Crise Financeira

“Margin Call – O Dia Antes do Fim” (Margin Call, 2011) é um filme de reação ideológica às graves denúncias sobre as origens da crise financeira global de 2008 (cujos desdobramentos ainda continuam) feitas por documentários como “Trabalho Interno” de Charles Ferguson ou “Capitalismo: Uma História de Amor” de Michael Moore. “Margin Call” despolitiza os fundamentos da crise ao se levar a sério como um “thriller” matemático-financeiro. Embarca no hermetismo dos números para subliminarmente provar ao espectador leigo que, no final, toda a turbulência econômica surgiu por  “erros de estimativa de volatilidade” colocando entre parêntesis os fatores demasiadamente humanos: relações promíscuas das elites financeiras com o Estado e a Política.

É bastante conhecido o papel ideológico que Hollywood sempre desempenhou, desde os esforços patrióticos durante a Segunda Guerra Mundial até a chamada “Política de Boa Vizinhança” durante o governo do presidente Roosevelt quando foi incentivada a promoção de artistas latino-americanos ao estrelato cinematográfico como tática de cooptação política.

O que impressiona atualmente é o “timing” da contra-propaganda ideológica dos filmes hollywoodianos.  

Depois da explosão da bolha imobiliária e dos empréstimos hipotecários que arrastaram os mercados globais para a crise em 2008, assistimos às denúncias expostas por documentários como Trabalho Interno (Inside Job, 2010). Premiado com o Oscar de melhor documentário, o diretor Charles Ferguson deu os nomes de diretores, executivos e empresas (de seguros, bancos de investimentos etc.) e descreveu a engenharia financeira irresponsável que torrou dinheiro público e fez poucos ficarem milionários com a explosão da “bolha” financeira. E, o que é mais grave, demonstrou que os artífices dessa engenharia estiveram conscientes o tempo todo, ao jogar em dois lados: ao mesmo tempo em que apostavam deliberadamente na inadimplência das hipotecas, asseguravam aos seus clientes a “saúde” financeira dos papéis podres que comercializavam.

Em seguida Hollywood contra-ataca com duas produções ficcionais: uma que glamouriza a produção de fortunas nos mercados finananceiros; e a outra que traduz as origens da crise financeira global em um “erro de cálculo”.

A primeira reação foi o filme “Sem Limites” (Limitless, 2011) onde toda a suspeita da engenharia financeira de Wall Street é “naturalizada” ou “matematicizada” através da estória da descoberta do algoritmo de sucesso que garante a fortuna e o sucesso. Se o documentário “Trabalho Interno” denunciava que todas as fortunas do mercado financeiro provinham de “bolhas” criadas por falcatruas possibilitadas pela desregulamentação e relações promíscuas entre Estado e especuladores, em “Sem Limites”, ao contrário, o sucesso provém de fórmulas matemáticas e a utilização total do cérebro através de “smart drugs”.

A segunda reação é o recente filme “Margin Call – O Dia Antes do Fim”. Se no filme “Sem Limites” temos a história do algoritmo de sucesso inventado por uma mente esperta, em “Margin Call” temos a estória de algoritmos que produzem “números que não se somam” reduzindo a explicação da crise financeira global a um “erro de estimativa dos índices de volatilidade”.

quarta-feira, janeiro 04, 2012

Há Semelhanças entre Jesus Cristo e Harry Potter?

O que há em comum entre a figura bíblica de Jesus Cristo e o blockbuster literário e cinematográfico Harry Potter? Segundo Derek Murphy no livro “Jesus Potter, Harry Christ”, mais coisas do que imaginamos. Para ele são “modelos literários” ou “composições de mitológicos e filosóficos símbolos de salvação". Se Henry Potter é a recorrência da narrativa mítica da agonia-morte-ressurreição do herói, Jesus Cristo estaria conectado com toda uma tradição antiquíssima de deuses encarnados destinados à morte e ressurreição.  


PHD em Literatura Comparada e especialista em estudos religiosos e história bíblica, o norte-americano Derek Murphy lançou em 2011 o controverso livro "Jesus Potter, Harry Christ: The Fascinating Parallels Between Two of the World's Most Popular Literary Characters" onde descreve as similaridades entre Jesus Cristo e Harry Potter, sucesso literário e cinematográfico da escritora britânica J. K. Rowling. Apesar do título irônico, o livro é uma pesquisa bem fundamentada em Religião Comparada com centenas de notas de rodapé e referências a mitologias antigas e cultura moderna. 

O livro se debruça numa questão crucial: é possível separar a imagem mítica de Jesus Cristo do próprio homem histórico? Ao focar a figura bíblica de Jesus como “figura literária”, Murphy aproxima-se de duas linhas de análise: primeiro, a discussão da existência do “monomito” feita pelo historiador e mitólogo Joseph Campbell onde a figura de Cristo é inserida no tradicional mito do Herói como um protagonista que forçosamente deve seguir uma jornada de nascimento-queda-martírio-morte-renascimento-renovação; e, segundo, a constatação da existência de narrativas míticas recorrentes em inúmeras religiões pagãs ou de mistérios sobre divindades encarnadas destinadas à morte e ressurreição.

Reproduzimos abaixo uma análise de Miguel Conner (escritor norte-americano de sci fi e editor/apresentador do programa radiofônico "Aeon Bytes Gnostic Radio" - programa de debates e entrevistas semanais sobre temas do Gnosticismo, literatura e cultura pop) faz do livro “Jesus Potter Harry Christ” onde associa a “figura literária” de Jesus com as próprias origens sincréticas do Cristianismo.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

O Diabo tem um plano em "Querida, Voy a Comprar Cigarrillos y Vuelvo"

Ter uma segunda chance para voltar no tempo e redimir-se das decisões erradas na vida. Uma velha estória sempre contada pelos filmes hollywoodianos sob um viés moralista. Mas no filme argentino Querida, Voy a Comprar Cigarrillos y Vuelvo” (2011) o tema vai mais além ao acrescentar o elemento do Fantástico: um homem medíocre e fracassado faz um pacto faustiano com o demônio na tentativa de, através do conhecimento do futuro, manipular o Tempo, o Destino e enganar o próprio demônio. Através de uma narrativa irônica e de humor cáustico, cria-se um clima ambíguo onde é impossível julgar o anti-herói. Indicado pelo nosso leitor Fabio Hofnik, o blog conferiu o filme.

Certa vez ouvi de alguém: “Passamos metade da vida tentando corrigir os erros que cometemos na outra metade.” É possível termos uma segunda chance depois de tomarmos consciência das decisões erradas do passado? E se tivermos essa chance, teremos a sabedoria e o livre-arbítrio para não cair nos mesmos erros?

Uma estória contada seguidas vezes pelo mainstream hollywoodiano, sempre pelo otimista viés moralista e religioso que nunca coloca em questão um aspecto: o homem realmente quer mudar? Ou será que a mediocridade e o obscurantismo a qual a vida nos reserva pode impedir essa mudança?

A dupla de diretores argentinos Mariano Cohn e Gastón Duprat vai mais além ao tratar um tema tão recorrente acrescentando o elemento do Fantástico: a presença do Mal através da figura de uma espécie de demônio e a vitimização humana diante de uma realidade que o condena à mediocridade. De um lado um antigo mercador (Eusebio Poncela) que, no século III no Marrocos, é atingido duas vezes seguida por um raio tornando-se um ser imortal que vaga pelo mundo propondo tratos e fazendo trapaças temporais. Do outro, Ernesto (Emilio Disi), um sessentão que passa os dias queixando-se das oportunidades que teve e fracassou, casado com uma mulher que a todo momento joga na cara o seu fracasso.

Tecnologia do Blogger.

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Bluehost Review