quarta-feira, dezembro 31, 2014

No quinto aniversário o blog deseja ao leitor um feliz 2015

Em dezembro o blog “Cinema Secreto: Cinegnose” completou o seu quinto ano de atividades. Agradecemos aos nossos leitores pelos comentários, críticas e constantes sugestões de filmes para serem analisados e pautas para serem abordadas. Graças ao estímulo dos nosso leitores o blog alcançou várias conquistas como ampliar parcerias com outros blogs e portais de notícias e desenvolver pesquisas científicas que resultaram em descobertas como: as cartografias e topografias da mente, adgnose, o fenômeno das bombas semióticas, sincromisticismo, parapolítica entre outras. Essa expansão física e de resultados do blog, impõe o desafio mais importante para o próximo ano – a busca da sustentabilidade financeira para manter o “Cinegnose” em atividade. O que nesse final de ano resultou no conflito com o Google AdSense por supostas “violações” e a tentativa de censura em nossos conteúdos. Um Feliz 2015 para nossos leitores, repleto de iluminações gnósticas!

(Na foto algumas personalidades e filmes que fazem a cabeça do "Cinegnose": Freud, Theodor Adorno, Jean Baudrillard, o diretor Stanley Kubrick e os filmes Matrix, Show de Truman, Lucy e The Machine)

Há 5 anos, no encerramento de uma disciplina da pós-graduação na ECA/USP, a professora Glória Kreinz indagou para mim: por que não faz um blog? Era o início da ideia do “Cinema Secreto: Cinegnose”.

Muito material de análise fílmica tinha ficado de fora da dissertação de Mestrado chamada Cinegnose – a recorrência de elementos gnósticos na atual produção cinematográfica norte-americana, pela própria limitação de espaço de uma pesquisa dessa natureza. Um blog seria o espaço perfeito para publicar as análise fílmicas de 20 filmes que fizeram parte do universo de pesquisa da dissertação. Mais tarde, a dissertação se transformaria no livro Cinegnose, publicado pela editora Livrus.

segunda-feira, dezembro 29, 2014

Blog censurado pelo delírio digital do Google AdSense

Para minha surpresa, o blog “Cinema Secreto: Cinegnose” foi acusado, julgado e executado às vésperas do Natal. Acusação: disseminação de conteúdos “chocantes” de “violência”, “pornografia”, “sangue” e “atitudes repulsivas”. Pelo menos é o que disseram os robôs e scripts do Google AdSense, lembrando a elite de juízes de rua do filme “Judge Dredd” que julgava e executava instantaneamente os violadores – “veiculação de anúncio do Google AdSense foi desativada no seu site por violação do regulamento do programa”, informava o e-mail executor!. Esse será o admirável mundo novo do Google: o delírio digital dos códigos binários que, sem compreender contextos, reduzirá a realidade ao denominador comum do 0/1. Como um blog que analisa filmes e a mídia como sintomas do imaginário social de uma determinada época, poderá tratar dessa temática sem cair na “malha fina” dos onipresentes e oniscientes robôs digitais? Bem vindo à futura blogosfera “disneyficada” e pacificada em tons pastéis semelhantes à cidade cenográfica de Seaheaven do filme “Show de Truman”.

Entre um e-mail e outro na caixa de entrada na véspera de Natal, com os tradicionais desejos de boas festas, surge um com título ameaçador: “A veiculação do anúncio do Google Adsense foi desativada para o seu site”. Um estranho e-mail cujo conteúdo narra algum tipo de julgamento feita à minha revelia no qual fui acusado, condenado e executado! Isso depois de seis meses de anúncios adsense no blog.

sábado, dezembro 27, 2014

Em Observação: "Êxodo: Deuses e Reis" (2014) - Deus é o vilão?

“Êxodo: Deuses e Reis” é mais um filme da tendência atual de produções hollywoodianas de temas bíblicos. Os produtores escolheram o diretor certo: Ridley Scott, cujos filmes parecem ter um tema recorrente – a morte dos deuses. Assim como no filme “Noé” de Aronofsky, o Deus do Velho Testamento bíblico é apresentado de forma gnóstica como um Demiurgo – ciumento, rancoroso e vingativo. O filme desperta protestos de teólogos e cristãos sobre essa visão tão sombria de Deus: “Como um Moisés horrorizado pode acompanhar o Senhor?”.

quinta-feira, dezembro 25, 2014

Walt Disney mexicano treina crianças para o mundo corporativo

Apontado como o Walt Disney mexicano, com um toque de Willy Wonka e sua fantástica fábrica de chocolate, o empresário Xavier López Ancona desde 1999 comanda a KidZania. É uma rede de parque temático para crianças presente em 16 países, e agora também em São Paulo. “Crianças necessitam de histórias de êxito”, diz o empresário cujo parque simula em escala infantil uma cidade onde, através de jogos de role playing, os pequenos performam atividades adultas remuneradas pela moeda local. Expostas ao bombardeio de marcas globais e acompanhadas por pais orgulhosos, os pequenos tornam-se médicos, bombeiros, jornalistas ou chef de cozinha. É a “edu-diversão”: crianças tornam-se espelhos dos adultos – subliminarmente são treinadas em jogos e simulações para o mundo dos processos seletivos corporativos dos administradores, call centers e funcionários – é a “gameficação” e a simulação como ferramentas de administração. Esqueça o jogo lúdico e infantil. Agora o jogo deve ser focado no futuro e nos negócios.
“Marvin, a vida é pra valer
Eu fiz o meu melhor
E o seu destino eu sei de cor” (“Marvin”, Titãs)

“México: tão longe de Deus e tão perto dos EUA”. Essa frase que virou um provérbio dito pelo ex-presidente daquele país, Porfírio Diaz, mantém a atualidade. Sua economia dependente à norte-americana através do NAFTA resultou na liquidação das empresas públicas por meio de privatizações, sucateamento do Estado, crescimento da desigualdade e narcotráfico e a ampliação das indústrias “maquiadoras” – elaboração e reparação de produtos importados temporariamente para posterior exportação.

quarta-feira, dezembro 24, 2014

Cristo já está dentro de nós nesse Natal?

“Aquele que beber da minha boca se tornará como eu e eu serei ele”. Essa frase atribuída a Jesus no evangelho gnóstico de São Tomas encontrado no Egito há quase 70 anos é fonte de controvérsia por inspirar uma visão herética de Cristo e da sua missão aqui na Terra: Ele não veio nos “salvar”, mas nos “curar”, isto é, despertar Ele dentro de nós mesmos.

O historiador e mitólogo Joseph Campbell no livro O Poder do Mito nos oferece uma didática interpretação dessa passagem do Evangelho de São Tomas. “Que blasfêmia”, teria observado um padre na plateia em uma conferência de Campbell. Claro, "somente um deus pode se equiparar a outro deus."

Para além da sua figura histórica, como Mito, Jesus Cristo reflete nossas potencialidades espirituais, evocando poderes em nossas próprias vidas. Para Campbell é uma ideia potencialmente revolucionária: além da fé em Cristo suplantar a própria religião institucionalizada, significa, também, superar o nosso próprio ego ao voltarmos à raiz da palavra “religião”: religio, religar, onde a nossa vida isolada é ligada a uma vida una.

domingo, dezembro 21, 2014

Nossa consciência é uma ilusão no filme "Em Transe"

Uma gangue de ladrões que ao invés de assaltar um banco, tenta invadir a mente de alguém para reaver um valioso quadro de Goya perdido em uma frustrada tentativa de roubo a uma casa de leilões de artes. Com esse argumento que mistura os filmes de Nolan “A Origem” com “Amnésia”, o diretor Danny Boyle faz um interessante thriller psicológico noir no filme “Em Transe” (Trance, 2013). Boyle explora os principais ingredientes de um filme noir: homens durões, uma mulher fatal e um mundo de ilusões onde nada é o que parece ser. Nessa clássica receita de um thriller noir, Boyle acrescentou um ingrediente bem contemporâneo: a psicologia gnóstica – “Em Transe” faz uma espécie de engenharia reversa do processo de perda da nossa consciência na ilusão que conhecemos como “realidade”: quanto mais acreditamos que temos livre-arbítrio, menos percebemos que somos escravos de um estado hipnótico. Filme sugerido pelo nosso leitor Felipe Resende.

Quatro figuras semi-nuas estão se contorcendo no ar. Três delas usam chapéus pontudos, e estão segurando a quarta contra a sua vontade. Seu rosto está contorcido em uma careta agonizante e seus captores parecem chupar sua carne e sangue. Abaixo dessa imagem horrível está uma quinta figura que se esconde sob um cobertor com os punhos estendidos numa vã tentativa de afastar o tormento que paira acima dele – ou talvez no interior da sua própria cabeça.

Esta não é uma cena do thriller psicológico de Danny Boyle Em Transe (Trance, 2013): é na verdade uma descrição do quadro chamado Bruxas no Ar do pintor espanhol Goya, pivô de toda a trama do filme que gira em torno do seu roubo. Mas lá pela metade do filme, provavelmente o espectador vai se identificar com o personagem do quadro que tem o cobertor sobre a cabeça e compreender o porquê dessa obra ser o centro de tudo: o que entendemos como realidade pode ser nada mais do que a soma de todas as impressões, sugestões ou sentimentos criados por nós ou simplesmente inseridas em nossa cabeça – acreditamos no livre-arbítrio de nossas ações e, baseado nisso, construímos nossas vidas. Mas até que ponto isso é verdade?

sexta-feira, dezembro 19, 2014

Papai Noel: modo seguro de usar


Jamais fume, fale palavrões, beba álcool ou tenha atitudes inconvenientes ao lado de um Papai Noel. Ele poderá matá-lo. Isso porque por baixo da roupa natalina esconde-se um raro ser ardiloso e cruel, caçado na Finlândia, treinado para executar o papel do bom velhinho e exportado para todos os shopping centers do mundo pela empresa Rare Exports Inc. Pelo menos é o que pensa o cineasta finlandês Jalmari Helander, um estudioso não só das origens do mito, mas da sua conversão publicitária norte-americana feita pela Coca-Cola. Os curtas “Rare Exports Inc.” (2003) e “The Official Rare Exports Inc. - Safety Instructions” (2005) são produtos da fixação do diretor pelo personagem e que, mais tarde, acabou resultando no longa metragem “O Papai Noel das Cavernas” (2010): são fábulas que mostram o quanto de frieza administrativa, gerenciamento e treinamento de recursos humanos está por trás de cada rosto feliz dos papais noéis, funcionários e atendentes de toda a estrutura comercial que se traveste com signos da compaixão e do amor ao próximo. Veja os dois curtas.
De onde vêm os papais noéis de todos os shoppings centers do mundo? São velhinhos aposentados que fazem bico no final de ano para aumentar um pouco a renda? Não, segundo o diretor finlandês Jalmari Helander: eles são raros produtos de exportação do seu país, caçados por corajosos homens na Lapônia para serem vendidos para todo o mundo
“Antes de cair a primeira neve do inverno, caçadores profissionais começam o seu trabalho. O longo processo de rastreamento, caça e transformação desse rei da floresta em um produto acabado é um longo processo, mas o resultado final é motivo de comemoração."

quarta-feira, dezembro 17, 2014

Pequeno manual de guerrilha semiótica antimídia

É inacreditável que depois de quase um século de legado em instrumentos, estratégias e pesquisas na Ciência da Comunicação, a única reposta possível do PT à agenda imposta pela grande mídia seja a articulação de um “gabinete de crise”. Administrar os estragos provocados pelas explosões das bombas semióticas apenas legitima e dá pertinência à pauta diuturnamente elaborada pelas redações dos grandes veículos. O PT repete o mesmo erro estratégico das esquerdas em todos os tempos: pensar a comunicação ainda de forma tradicional (iluminista) como uma questão de Fonte de transmissão dentro da cadeia de comunicação. As bombas semióticas demonstraram que a grande mídia já está à frente com o chamado “softpower” – não mais tentar convencer ou persuadir, mas agora criar pânico e moldar percepções.   Guerrilhas semióticas são a única estratégia possível frente ao cerco das grande mídias: criar uma contra-agenda atuando na recepção e nos códigos. Nessa postagem, um esboço inicial de uma guerrilha no interior dos processos de comunicação. 

A notícia de que o ex-presidente Lula articula a criação de um “gabinete de crise” para enfrentar o impacto das denúncias da Operação Lava Jato é tudo aquilo que a grande mídia esperava ouvir: um “gabinete de crise” apenas vai retroalimentar a agenda criada diariamente pelos colunistas e editoriais, legitimando a pauta pré-estabelecida, como se o PT fosse um bom adversário que aceita as regras do jogo.

Foi também noticiado que o gabinete será formado por um “grupo de notáveis” (sempre os “notáveis”... Marina Silva também pretendia montar um ministério com “notáveis”...).

segunda-feira, dezembro 15, 2014

"Som do Ruído" dispara bombas musicais contra indústria do entretenimento

Apesar de ter nascido em uma família de longa tradição de músicos famosos, Amadeus é um investigador de polícia que odeia música. Mas ironicamente destinam a ele o caso mais difícil da sua vida: seis bateristas excêntricos, liderados por um gênio musical anarquista, decidem lançar uma ataque em escala sonora transformando torres de alta tensão, salas de cirurgia e agências bancarias em inesperados instrumentos de música e ritmos. Bandidos de uma nova geração: terroristas que explodem bombas musicais. Esse é a produção sueca “O Som do Ruído” (Sound of Noise, 2010), claramente inspirado no manifesto musical futurista de 1913 “Arte dos Ruídos”. O filme é uma comédia e, ao mesmo tempo, um manifesto estético-político que mostra como a música pode produzir conformismo. Mas também no diz como é possível reagir através de guerrilhas sonoras-musicais que nos libertem da música produzida pela indústria do entretenimento.

Quando falamos em filmes gnósticos imaginamos dramas ou thrillers de ficção científica cheios de ação como Matrix ou A Origem, ironia social como em Show de Truman ou intrincadas narrativas que confundem a ilusão com a realidade como em Ilha do Medo. Os simbolismos gnósticos são pesados e épicos ao denunciarem que a realidade é ao mesmo tempo ilusão e prisão.

Um filme que combina comédia, música e romance pode também lidar com temas gnósticos profundos? Assistindo ao filme sueco O Som do Ruído (Sound of Noise, 2010) podemos chegar a uma surpreendente conclusão positiva.  Sim, a música e o som que nos rodeiam podem também modelar a nossa experiência, criar o senso comum e nos faz aderir a valores sociais, produzindo conformismo ao status quo.

sábado, dezembro 13, 2014

Rio de Janeiro leva crianças para o Capitalismo Cognitivo

Prefeitos, governadores e presidentes vivem a pressão política  e mercadológica de tornar visíveis para a mídia e opinião pública suas obras e realizações. Mas às vezes essa corrida contra o tempo cria verdadeiros atos falhos onde a peça publicitária se trai e a verdade sobe à tona em meio a camadas de discursos e eufemismos. O exemplo mais recente é a da inacreditável publicidade veiculada no jornal “O Globo” do programa “Fábrica de Escolas do Amanhã” da Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro: crianças em carteiras sobre uma esteira de linha de produção ao melhor estilo do vídeo clip “Another Brick in The Wall” do Pink Floyd. Qual concepção de educação pública é passada pelo ato falho visual? Para onde aquela esteira está levando as crianças da foto? Uma análise iconográfica e semiótica da peça publicitária pode revelar: a esteira leva para o futuro, para o Capitalismo Cognitivo.

Como diz aquele provérbio, uma imagem vale mil palavras. Publicidade veiculada no último domingo no jornal O Globo do programa “Fábrica de Escolas do Amanhã”, da Secretaria Municipal da Educação do Rio de Janeiro, mostra uma fotografia onde explicitamente faz uma aproximação de uma escola com uma linha de produção industrial.

Acima da foto em que vemos crianças nas carteiras escolares sobre uma esteira de linha de produção há um texto que diz: “Nossa linha de produção é simples. Construímos escolas, formamos cidadãos e criamos futuros”. A peça publicitária divulga o programa da prefeitura que constrói estruturas pré-moldadas para a construção e escolas, além de armazenar e distribuir material para as unidades da rede de ensino.

quarta-feira, dezembro 10, 2014

Efeito Pinball potencializa bombas semióticas na mídia

Quem não conhece o jogo de arcade chamado Pinball? Um lançador dispara uma bolinha de metal que bate e rebate em pinos somando pontos a cada tilintar barulhento. Numa tragicômica analogia, a grande mídia parece ter transformado o País numa gigantesca arcade ao chegar no estado da arte de impor sucessivas agendas que se assemelham a bolinhas metálicas disparadas em um Pinball: “mensalão”, “caos aéreo”, “o gigante acordou”, “petrolão” etc. O Governo responde aqui e ali com notas, criando um círculo infernal de bate-rebate que só legitima a agenda anteriormente criada. O Efeito Pinball se transforma no meio condutor das bombas semióticas que são detonadas diariamente nas mídias. Por si só elas não têm força: necessitam do meio condutor da agenda, assim como as ondas de choque produzidas por uma bomba química necessitam do ar.

Nas últimas edições do telejornal SPTV da Globo, o apresentador Cesar Tralli tem se mostrado particularmente indignado, não se sabe porque orientado pelo ponto para que ele eleve o tom das críticas ou se está contaminado pelo clima do chamado “terceiro turno” que se seguiu após as eleições.

Em sucessivas matérias Tralli tem demonstrado uma indignação tão cívica quanto seletiva. Na inauguração de mais uma ciclo-faixa, na Zona Norte da cidade de São Paulo, dispara inconformado: “assim é fácil fazer 400 quilômetros de ciclo-faixas, passar a tinta sobre buracos”, diz mostrando um close up de um buraco no meio da faixa recém-inaugurada. Pelo tipo de lente e esmero da teleobjetiva parecia mais uma cratera lunar!

Série "Além da Imaginação" e a sensibilidade gnóstica atual

A comparação do episódio “Special Service” da terceira temporada da série de TV “Além da Imaginação” (1988-89) com o filme “Show de Truman” (1998) revela didaticamente com a sensibilidade gnóstica atual está por trás de adaptações dos clássicos da TV e do cinema. O episódio de 1988 inspirou  Andrew Niccol a escrever o roteiro de “Show de Truman”: enquanto no episódio original vemos uma típica ficção científica orwelliana onde a paranoia e conspirações dominam o protagonista, na adaptação de Niccol vemos esses mesmos elementos transmutados em drama e sátira social. Mas Niccol colocou algo mais: a suspeita de que o reality show não seja apenas televisivo, mas cósmico.

A postagem anterior sobre o filme brasileiro O Efeito Ilha (1994) e a possibilidade sugerida pelo diretor Luís Alberto Pereira de que Peter Weir teria “chupado” a ideia do filme para construir o roteiro de Show de Truman (Truman Show, 1998), provocou polêmica aqui no blog – clique aqui.

Como vimos, essa suspeita não procede, já que o tema do controle da privacidade que é transformado em show pela mídia são tratados de forma invertida: em O Efeito Ilha, a transmissão televisiva involuntária da vida do protagonista é tratada como “dissonância cognitiva, isto é, elemento dissonante que faz os espectadores tomarem consciência da TV como instrumento de alienação; enquanto em Show de Truman, a vida do protagonista é transformada em um autêntico reality show, como instrumento de alienação para as massas.

domingo, dezembro 07, 2014

"O Efeito Ilha": "Show de Truman" plagiou filme brasileiro?

Em um tom quase profético, o filme brasileiro “O Efeito Ilha” (1994) de Luís Alberto Pereira antecipou toda a onda posterior dos reality shows na TV. Quatro anos depois o filme “Show de Truman” retomaria o tema da invasão de privacidade como show, levando Pereira a declarar que Peter Weil teria “chupado” sua ideia. Posteriormente o filme “O Efeito Ilha” seria lançado em VHS como “The Man In The Box” – um técnico de TV é vítima de um estranho fenômeno eletromagnético através do qual sua vida passa a ser transmitida ao vivo em todos os canais de TV. “O Efeito Ilha” captou o espírito do seu tempo (naquele momento o Projeto científico Biosfera 2 e o “Real World” da MTV eram os embriões de um novo gênero televisivo). Por que, ao contrário dos EUA, o cinema brasileiro não continuou explorando esse tema, relegando o filme “O Efeito Ilha” ao esquecimento? 

Luís Alberto Pereira foi quase profético. Egresso da primeira geração da Escola de Comunicação e Artes da USP, cineasta, ator e diretor, com o filme O Efeito Ilha (1994) Pereira antecipou em alguns anos no cinema o tema das consequências exposição midiática da vida privada, embora já estivesse naquele momento acontecendo o que seria o embrião de toda a onda posterior dos reality shows.

Em 1991 oito pesquisadores entraram numa gigantesca estrutura geodésica em Tucson, Arizona (EUA), para ficarem trancafiados por dois anos. Era o Projeto Biosfera 2, com o propósito de entender como a biosfera planetária funciona e como o ser humano interage com os ecossistemas. Foram monitorados por dois mil sensores eletrônicos e assistidos por 600 mil pagantes em todo mundo – sobre isso clique aqui.

quarta-feira, dezembro 03, 2014

O Inferno alquímico de Dante no filme "O Reflexo do Medo"

Conhecida como "Cidade Luz", Paris também é escura e misteriosa: sob a cidade se estende uma vastíssima rede de mais de 300 quilômetros de túneis e labirintos. São as chamadas “catacumbas de Paris” ou “cidade dos mortos” onde jaz os restos de seis milhões de pessoas, além de vestígios de cultos celtas, franco-maçons, gravuras e sinais ritualísticos sagrados. Nessa atmosfera claustrofóbica e sombria se movem os arqueólogos urbanos do filme “O Reflexo do Medo” (As Above, So Below, 2014), misturando terror com thriller psicológico no estilo falso documentário ou “found footage”. Como informa o título original, a narrativa explora o princípio alquímico da Correspondência, repleto de referencias ao chamado esoterismo cristão presente na obra de Dante Alighieri “A Divina Comédia”, na qual o diretor John Erick Dowdle se inspirou para escrever o roteiro. Filme sugerido pelo nosso leitor Felipe Resende.

Há duas cidades de Paris: a da superfície, agitada, viva, móvel e cheia de cores e contrastes; e a outra subterrânea, imóvel, quieta e repleta de mistérios que desafiam o tempo. Fala-se em “cidade dos mortos”, mas também são conhecidas como “catacumbas de Paris”, uma rede vastíssima de caminhos com mais de 300 quilômetros de extensão onde apenas uma pequena parte é aberta à visitação pública.

São galerias labirínticas, por vezes com três níveis de caminhos, que se estende horizontalmente, mas em certas partes mergulha mais profundo no subsolo o que faz até hoje ser uma mistério inexplorado por razões técnicas. Muitos aventureiros desapareceram nessas galerias labirínticas, razão pela qual a exploração é proibida por lei.

segunda-feira, dezembro 01, 2014

Culpa e fúria na série "Chaves"


O criador da série “Chaves” (El Chavo Del Ocho, 1972-92), Roberto Gómez Bolaños, falecido em 2014, era apelidado de Chespirito - “Pequeno Shakespeare”. Mas ele sempre esteve muito mais próximo de Stephen King e do escritor francês Camus. Se King dizia que o inferno era a repetição e Camus via o mito de Sísifo no homem moderno, Bolaños vai materializar essas intuições em uma pequena vila de pobres e remediados em algum lugar no Distrito Federal do México. Uma galeria de personagens que parecem condenados a repetir seus pecados na eternidade, assim como Sísifo rolava uma pedra montanha acima numa tragédia sem fim. Mas se fosse apenas isso, Chavez não seria tão cultuado por tantas gerações. Há algo mais: se por um lado a série revela um sentido auto-moralizante onde cada personagem repete "ad eternum" seus pecados mortais, do outro ninguém demonstra o menor respeito pela Ordem, seja a de Deus ou do Diabo. A receita de um cult: a ambiguidade da culpa misturada com a fúria.

Foi durante mais uma reprise de um episódio da série Chaves em novembro de 2014 no SBT que anunciada a morte do ator Roberto Gómez Bolaños, criador e protagonista da série humorística mexicana. De tanto a emissora de Silvio Santos reprisar e explorar a série nesses últimos 30 anos, era estatisticamente provável que a morte de seu criador fosse anunciada no meio de mais um episódio.

Pelo menos três gerações se divertiram com uma produção dos anos 1970 da Televisa com explícita falta de recurso e com um humor hoje considerado politicamente incorreto – por exemplo, professor Girafales fumava charuto em uma sala de aula de crianças e os personagens da pequena vila se esbofeteavam com tal frequência que um dos episódios chegou a ter a exibição vetada - veja o episódio abaixo.

sábado, novembro 29, 2014

"Veja São Paulo" detona bomba semiótica na Cracolândia

Feios, sujos, malvados e viciados retornam à Cracolândia, levantando uma mini favela em plena rua do Centro. A grande mídia esfrega as mãos para denunciar uma suposto fracasso do programa da Prefeitura de São Paulo “De Braços Abertos”. Assim como os black blocs (úteis na oportuna criação de imagens midiáticas de caos no País em ano eleitoral) foram glamurizados através de Dani Pantera e Emma, agora o “fracasso” na Cracolândia é midiatizado pela personagem da “Cinderela às avessas”, a ex-modelo Loemy que se tornou viciada em crack e vaga pelas ruas do Centro. Matéria da "Veja São Paulo" a transforma em mais uma bomba semiótica, assim como foi a “musa” black bloc Dani Pantera: a bomba da “good-bad girl”.  A matéria se mostra menos uma reportagem e muito mais um sintoma do DNA dos cursos internos de jornalismo da Editora Abril: a frenética busca por personagens que confirmem narrativas que o próprio Jornalismo já tem de si mesmo.

- Olá, querida - gritou Joe Louis a sua mulher ao vê-la o esperando no aeroporto de Los Angeles. Ela sorriu enquanto aproximava-se e quando estava a ponto de ficar na ponta dos pés para lhe dar um beijo, deteve-se de pronto.
- Joe, onde está sua gravata? - perguntou.
- Ai, querida - ele desculpou-se encolhendo os ombros - estive fora toda a noite em Nova York e não tive tempo... (...)

Houve uma época em que jornalistas buscavam personagens (como o protagonista desse diálogo, o boxeador Joe Louis) para mostrar o lado humano de figuras que o tradicional texto jornalístico não permitia. Nesse texto da revista Esquire em 1962, Gay Talese (um dos precursores do chamado Novo Jornalismo – gênero jornalístico do início dos anos 60 nos EUA que misturava narrativa jornalística com estilo literário) procurava mostrar o lado humano de um campeão de boxe capaz de expressar fragilidade ao encolher os ombros em uma pequena discussão com sua mulher no aeroporto.

domingo, novembro 23, 2014

Amor e entrelaçamento quântico no filme "Interestelar"

Depois de desafiar os espectadores com desconstruções narrativas como “Amnésia” e articular sucessivas camadas de mundos oníricos em “A Origem”, agora Christopher Nolan em “Interestelar” (Interstellar, 2014) nos desafia com os paradoxos da mecânica quântica e relatividade.  Aqui não há mais heróis tentando salvar a Terra, mas pessoas que se sacrificam na procura de um caminho para a humanidade abandonar um planeta agonizante. E a única saída será através de buracos negros e “buracos de minhoca” cósmicos. Porém, as equações falham em tentar conciliar a dimensão quântica e a relatividade. Qual a solução proposta por Nolan? Amor e Comunicação, os únicos elementos que atravessam os diferentes espaços-tempos e que resolveriam o enigma do chamado “entrelaçamento quântico”. Tudo com muitas alusões gnósticas e religiosas, criando uma poderosa atmosfera mística.

John Smith trabalha como projetista em um cinema nos EUA. John fez um curioso relato no início desse mês: ao receber a cópia do filme Interestelar percebeu que ela veio embrulhada e rotulada como “Flora’s Letter” – The Hollywood Reporter, 22/10/2014.

Já é bem conhecida essa estratégia onde os filmes são distribuídos ou mesmo produzidos com títulos falsos a fim de dificultar a pirataria ou roubo.

Mas também é conhecido que muitos produtores não resistem à tentação de deixar nesses falsos rótulos pistas inteligentes e sugestões. É o exemplo de filmes anteriores de Nolan que foram distribuídos dessa maneira, com intrigantes pistas: “Backbreaker” para o filme Batman - O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008) e “Be Kind, Rewind” para Amnésia (Memento, 2000).

sábado, novembro 22, 2014

Da caridade ao cinismo do marketing social em "Quanto Vale ou é por Quilo?"

Desde a ideia do amor ao próximo transmitida por Jesus, a tragédia transformou-se em farsa: a caridade transformou-se em filantropia para, nos tempos cínicos atuais, finalmente se converter em marketing social. Esse é o tema do filme de Sérgio Bianchi “Quanto Vale ou é por Quilo?” (2005). Inspirando-se num conto de Machado de Assis e em processos judiciais do século XVIII disponíveis no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, Bianchi faz de uma narrativa que mistura sarcasmo e drama um flagrante de como a “escravidão moderna” perpetua as formas coloniais de dominação através do chamado Terceiro Setor com suas ONGs. Partindo do mito da exclusão e marginalidade, o marketing social esquece de que a miséria já está há muito tempo integrada: como oportunidade de lucro, lavagem de dinheiro e formas irregulares de captação de dinheiro público.

Misericórdia, compaixão, amor ao próximo e o perdão foram os valores civilizatórios trazidos pela ética e moralidade cristã. As epístolas do Novo Testamento descrevem como Jesus queria que o ódio e a indiferença fossem substituídos pelos “amar o próximo como a si mesmo”, forma de Deus permanecer em nós.

Depois disso, a caridade passou a ser considerada obra piedosa onde o autor abdicaria de toda a sua vaidade. O anonimato é o valor máximo por ser o ato da caridade uma descoberta íntima de Deus. As hospedarias para peregrinos de Santo Agostinho e o hospital para vítimas da fome e epidemia em Constantinopla de São João Crisóstomo na Idade Média foram exemplos do ascetismo como impulso voltado para o interior de si mesmo.

Tudo muda em meados do século XVIII quando a caridade se transforma em filantropia, entendida como a caridade cristã laicizada: “fazer o bem” deixa de ser uma virtude cristã para ser uma virtude social.

quinta-feira, novembro 20, 2014

A fotografia pode roubar nossa alma no filme "Skew"

Aclamado em diversos festivais de filme de terror, o filme independente “Skew” (2011) parte de uma curiosa teoria da fotografia formulada pelo escritor francês Balzac no século XIX: toda fotografia é um “crime espectral” – cada exposição à câmera nos rouba uma das camadas espectrais que compõem o nosso ser. A cada fotografia morremos um pouco. Com essa premissa, o diretor Sevé Schelenz constrói uma narrativa com câmera na mão que no início parece se filiar a estilo de filmes como “Bruxa de Blair” ou “Rec”. Apenas parece. Ao se inspirar  no temor de Balzac, Schelenz não só leva a premissa às últimas consequências como também a atualiza: na verdade, as imagens estariam roubando não as nossas camadas espectrais, mas as camadas de memórias que compõem quem nós somos. Filme sugerido pelo nosso leitor Felipe Resende.

Considerado o fundador do Realismo na literatura moderna, o escritor francês, autor de A Comédia Humana e Ilusões Perdidas, Honoré de Balzac (1799-1850) tinha fortes objeções contra a fotografia. Ele só se permitiu ser “daguerreotipado” (o primeiro nome dado à fotografia a partir do nome do inventor Louis Daguerre) uma vez, uma pouco antes da sua morte. 

Influenciado pelo misticismo esotérico do poeta Johann Lavater (1741-1801) e das teorias da hipnose de Franz Mesmer (1734-1815) associadas ao magnetismo animal, Balzac acreditava que a fotografia praticava uma espécie de “crime espectral”:
“Todos os corpos físicos são compostos na sua totalidade por infinitas camadas fantasmagóricas, uma em cima da outra. A fotografia tem o poder de retirar cada camada espectral superior e a transfere para a fotografia. Na realidade exposições sucessivas à câmera fazem ser perdidas essas camadas fantasmagóricas, isso é, a própria essência da vida”.

segunda-feira, novembro 17, 2014

A escassez de água é uma bomba semiótica?

Enquanto a Grande São Paulo vive a contagem regressiva para o fim do volume morto na crise de abastecimento de água do sistema Cantareira, sincronicamente estreia nos cinemas “Interestelar” cujo plot se inicia com o planeta Terra devastado por tempestades de areia e escassez de recursos naturais. Hollywood e os telejornais da grande mídia se tornaram uma verdadeira caixa de ressonância: enquanto o jornalismo diariamente apresenta sua natural presunção pela catástrofe ao querer “globalizar” a crise de água da Grande São Paulo como exemplo de uma suposta crise climática mundial, nos últimos 20 anos Hollywood aumenta o número de produções cujo tema da escassez e luta pelo controle da água é a chave central do roteiro. Depois de catorze anos da chamada “Guerra da Água” na Bolívia, São Paulo seria o “Beta Test” de uma agenda mundial de mercantilização da água? Esse sincronismo faria parte de uma engenharia de opinião pública cujo mito da escassez de água seria a principal bomba semiótica?

Em meio à verdadeira contagem regressiva diária para o fim do chamado volume morto do sistema Cantareira de abastecimento de água da Grande São Paulo, o apresentador do SPTV da Globo, César Tralli, fala em tom dramático: “temos que economizar água, gente. Está acabando a água em todo o planeta!”.

Sincronicamente, estreia nos cinemas o filme Interestelar de Christopher Nolan, cuja narrativa se situa em um futuro próximo onde as fontes naturais do planeta Terra se tornam escassas e os ecossistemas são varridos por tempestades de areia, ameaçando a sobrevivência da espécie humana.

quinta-feira, novembro 13, 2014

Lenin inventou o Marketing?

“Lenin com o Comunismo prometeu felicidade. Isso é o Marketing!”. Essa linha de diálogo do filme “Branded” (2012), sobre um protagonista que se transforma em expert em Marketing na Rússia pós-comunismo, seria mais do que uma piada irônica? O líder da Revolução Bolchevique que abalou o mundo em 1917 teria sido o precursor da invasão da sociedade pelas marcas? Enquanto o capitalismo vivia a era da Publicidade como “a arte de vender a qualquer preço”, Lenin estaria na vanguarda da política como a “venda” da marca – o Marketing não trata mais de vender produtos ou serviços, mas da valorização do imaterial, do intangível. Da marca da foice e do martelo ao “M” do McDonald’s o Capitalismo levou algum tempo para entender isso. Se isso for verdade, teria existido uma linha de continuidade entre União Soviética e Sociedade de Consumo? A Guerra Fria teria sido na verdade um “Teaser” para aquecer o mercado de marcas?

Na coprodução Rússia/EUA chamada Branded (2012), filme sobre a trajetória do jovem russo Misha que se transforma em expert em Marketing e espião corporativo na Rússia pós-comunismo, a certa altura o protagonista formula uma polêmica tese: Lenin foi o inventor do marketing em 1918 ao criar uma forma absolutamente única de divulgar o Comunismo – ele teria feito o produto prometer algo: terra para os camponeses, fábricas para os trabalhadores e paz para os soldados.

“Lenin com o Comunismo prometeu felicidade. E isso é o Marketing! Os melhores designers... as marcas oficiais de cor... o vermelho, o logotipo com a estrela de cinco pontas. A super-marca. A KGB veio depois, como uma espécie de polícia da marca”, defende Misha ao contemplar os cartazes da estética realista socialista nas cores dominantes preto, branco e vermelho – sobre o filme Branded clique aqui.

terça-feira, novembro 11, 2014

"Quando Eu Era Vivo" mergulha na matriz edipiana do terror

Em um circuito dominado pelas comédias do Globo Filmes, é bem vinda a nova geração de cineastas brasileiros que se enveredam pelo gênero do terror. É o caso de Marco Dutra com produção recente “Quando Eu Era Vivo” (2014). Se no filme anterior “Trabalhar Cansa” (2011) a atmosfera de estranhamento e terror era construída dentro do drama social do trabalho precarizado da classe média, agora Dutra mergulha na matriz edipiana do gênero do terror: tensão e mal estar na relação pai, mãe e filho. Com ótima fotografia e design de áudio, um apartamento aos poucos se transforma em um casarão gótico mal assombrado por uma estranha energia que vem do passado e parece possuir aos poucos o protagonista. Novamente Marco Dutra traça um perfil psicológico da classe média: o apego a uma espécie de “superstição secundária” baseada no pastiche esotérico-religioso que tenta esconjurar a realidade de um fracasso conjugal. Filme sugerido pelo nosso leitor Mário.

O gênero terror é um ótimo objeto para as análises de psicanálise no cinema. Principalmente porque a sua matriz é essencialmente edipiana: dramas envolvendo culpa, incesto, a sedução da inocência, sexo culpado (sadomasoquista), a percepção corpo fragmentada do corpo pelo infante pré-formação do ego (daí o porquê do fascínio pelos corpos despedaçados, vísceras e sangue no cinema de terror) etc.

E, principalmente, o Mal e o Estranho como os nossos próprios impulsos aos quais deveremos renunciar na resolução do Édipo e na entrada ao mundo da Cultura. Os filmes de terror dramatizariam a nossa própria luta interna em ter que renunciar a Natureza (prazer, impulso, gratificação imediata) em nome da Cultura (renúncia e sublimação).

sábado, novembro 08, 2014

Física e Metafísica se encontram no filme "O Enigma do Horizonte"

“O Enigma do Horizonte” (Event Horizon, 1997) é uma ficção científica curiosa. Mal recebida pela crítica, a produção de Paul Anderson, que segue a linha de terror sci fi iniciada por “Alien” em 1979, junta alusões a clássicos como “Solaris” de Tarkovsky e “2001” de Kubrick. Mas por trás de camadas de explosões e clichês de terror espacial, há uma interessante combinação de física e metafísica, Cosmologia e Teosofia: um portal dimensional que curva o tempo-espaço não nos levará para novos mundos ou dimensões. Apenas revelará os nossos infernos íntimos, capazes de criar mundos etéricos que podem nos aprisionar. Filme sugerido pelo nosso leitor Felipe Resende.

No livro Uma Breve História do Tempo, o físico Stephen Hawking define o “horizonte de eventos” como a região fronteiriça de um buraco negro, a fronteira da região do espaço-tempo a partir da qual não é possível escapar. E Hawking comenta: “Pode-se dizer sobre o horizonte de eventos a mesma coisa que o poeta Dante disse da entrada no Inferno: Vós que entrais aqui, abandone todas as esperanças”.

Esta frase foi o ponto de partida do roteiro do filme O Enigma do Horizonte do diretor Paul Anderson (Resident Evil, Alien versus Predador). Numa audaciosa combinação do filme Solaris (1972) de Andrei Tarkovsky com o terror de Clive Barker de Hellraiser (1987) e com muitas alusões visuais ao clássico 2001: Uma Odisséia no Espaço de Kubrick. Paul Anderson tentou se enveredar por um subgênero da ficção científica iniciado por Alien de Ridley Scott em 1979: o terror sci fi, típico subgênero pós-moderno que abandona o otimismo futurista da ficção científica para sugerir um destino sombrio do progresso tecnológico – lá no futuro o homem encontrará monstros, predadores e o horror.

quarta-feira, novembro 05, 2014

O ovo da serpente do PT e a concepção fascista de vida


A política econômica neodesenvolvimentista do PT resgatou o povo não das misérias do capitalismo moderno, mas das misérias herdadas do passado colonial-escravista da Casa Grande e Senzala. Por isso, a sociedade do consumo, a precarização do trabalho e a ideologia meritocrática chocaram o ovo da serpente cujos filhotes surgem agora, polarizando o cenário político. Esses filhotes vão reeditar a mesma psicogênese da chamada “personalidade autoritária” encontrada em pesquisas empíricas feitas pela Universidade de Bekerley, Califórnia, coordenadas pelo pesquisador alemão Theodor Adorno há 64 anos. Naquela oportunidade a pesquisa descobriu uma conexão entre o conservadorismo político e o “caráter neurótico” marcado por nove traços de personalidade como “convencionalismo”, “submissão acrítica”, “destruição” e “cinismo”. Em um contexto diferente, o Brasil estaria repetindo o mesmo cenário psicossocial daquela época, a concepção fascista de vida?

O que há em comum nessas três cenas abaixo?

(a) Um jovem profissional, imerso e confinado numa dessas baias dos modernos ambiente corporativos, alterna páginas do Facebook, pesquisas profissionais e consulta ao calendário buscando as datas dos próximos feriados e os dias que poderão ser “enforcados”. Um pequeno devaneio em meio à estressante ordem meritocrática em busca de desempenho, resultados e promoções;

(b) Manifestação pelo impeachment da presidenta Dilma na avenida Paulista em São Paulo na semana passada. “Não queremos o vermelho na nossa bandeira!”, bradam enfurecidos manifestantes trajando amarelo, muitos deles com a bandeira brasileira sobre os ombros. Pouco depois na mesma manifestação, agora gritam “São Paulo é o meu país!”… porem, há a cor vermelha na bandeira desse Estado…;

domingo, novembro 02, 2014

Em Observação: "Interstellar" (2014) - uma astrofísica gnóstica?

Com lançamento previsto para o dia 6 de novembro, em “Interstellar” o diretor Christopher Nolan retorna às complexidades narrativas que o tornaram famoso em filmes como “Amnésia” e “A Origem”. Viagem espacial se mistura com viagem no tempo e astrofísica com relatividade geral: astronautas viajam através de um “buraco de minhoca” (wormhole) para chegarem a um universo alternativo em busca de novos planetas habitáveis, conseguindo fugir da catástrofe climática terrestre. A construção da realidade como camadas de eventos que se influenciam mutuamente, apesar de ocorrerem em tempo-espaços diferentes, se conecta a princípios gnósticos da astronomia e alquimia da antiguidade – o Princípio da Correspondência.

sexta-feira, outubro 31, 2014

Em "Amantes Eternos" a melancolia dos vampiros denuncia a decadência dos vivos

Conhecido pelos seus protagonistas que vivem sempre à margem da sociedade, arrebatados pelo vazio existencial e, por isso, capazes de um olhar mais crítico e verdadeiro, o diretor Jim Jarmusch (“Estranhos no Paraíso”, “Down By Law”, “Dead Man”, “Flores Partidas”) agora acrescenta os vampiros a sua galeria de anti-heróis. Em “Amantes Eternos” (Only Lovers Left Alive, 2013) Jarmusch questiona como seria viver eternamente em um mundo de seres mortais. Como seres que atravessaram séculos por todas as cenas culturais, científicas e artísticas poderiam viver num mundo que parece ter esquecido de tudo que de mais importante a História ofereceu (como, por exemplo, o trágico destino das ideias do cientista Nikola Tesla), e vê no You Tube a sua única fonte de cultura e entretenimento. Ironicamente,  para os vampiros os mortais não passariam de “zumbis” – seres condenados pela morte a recomeçarem sempre do zero do esquecimento.

Parecia que o cinema já tinha mostrado tudo sobre os vampiros: seres da noite, mortos vivos, encarnação do próprio Mal, seres dotados de perigoso poder de sedução, amores platônicos entre vampiros e mortais, amaldiçoados com a imortalidade, doentes contagiosos etc. Mas faltava um diretor como Jim Jarmusch para trazer esse personagem para a sua galeria de anti-heróis underground, aqueles que vivem à margem da sociedade e que, por isso, são capazes de um olhar crítico para uma sociedade de resignados.

terça-feira, outubro 28, 2014

O humano, demasiado humano no filme "Relatos Selvagens"

O homem atual seria um Sísifo moderno? Assim como o personagem da mitologia grega, condenado a carregar eternamente uma enorme pedra ao topo da montanha, o homem estaria condenado a não encontrar Deus, sentido ou propósito na existência, a não ser encontrar a si próprio – o humano, demasiado humano. Esse é a desconcertante co-produção Argentina/Espanha “Relatos Selvagens”, seis curtos relatos de pessoas comuns diante de circunstância incomuns: situações extremas com muito humor negro (e bota negro nisso) onde acabam sendo despertados em cada um os instintos mais básicos de vingança e violência. Em falso tom de comédia, o diretor Damián Szifrón parece querer brincar com o espectador: afinal, estamos rindo do quê?

O cinema contemporâneo pode ser basicamente dividido em dois grandes núcleos temáticos: de um lado, o gnóstico: filmes onde a jornada de sofrimentos e provações do protagonista não decorre de uma falha de caráter, pecados ou de deformações inerentes à natureza humana – ao contrário, decorre de um universo corrompido ou ilusório que o aprisiona da qual tenta escapar através de uma iluminação interior; e do outro o que poderíamos chamar de “humano, demasiado humano”: filmes que são o inverso do pathos gnóstico – o homem sofre em decorrência da sua própria natureza, fraquezas, paixões ou obsessões.

A co-produção Argentina/Espanha Relatos Selvagens do diretor Damián Szifrón claramente se insere nesse segundo núcleo temático. O filme é composto por seis curtas independentes, unidos apenas pelo tema comum da violência e vingança. Com muito humor negro (e bota negro nisso), são apresentados relatos de personagens colocados em situações extremas onde o instinto selvagem de sobrevivência e autopreservação vem à tona das formas mais variadas.

domingo, outubro 26, 2014

A grande mídia ameaça: meu ódio será a sua herança

Tal qual uma serpente, um muro cinza escuro serpenteia o Brasil dividindo o País do Acre ao litoral. É com essa sinistra animação que o infográfico do site da “Folha de São Paulo” chamado “Folhacóptero” explica o cenário eleitoral brasileiro, em um previsível silogismo cuja conclusão é a de que somente os pobres e ignorantes mantêm a candidata Dilma Rousseff na frente das pesquisas eleitorais. Divisão e Muro são as metáforas que a grande mídia sistematicamente vem utilizando para explicar o cenário político. Enquanto publicações estrangeiras como a “The Economist” usam infográficos mais neutros e elegantes para explicar as desigualdades históricas do Brasil, nossa grande mídia usa a imagem do muro, simbolicamente carregada de ódio e separatismo. A grande mídia sabe que vive o fim do seu poder político-financeiro e parece querer deixar para a História o ódio como a sua única herança.

Quem não se lembra do filme clássico do mestre da violência, Sam Peckimpah, Meu Ódio Será Sua Herança (The Wild Bunch, 1969)? Considerado o sexto melhor western de todos os tempos pela American Film Institute (AFI). O filme é um hino ao crepúsculo da era do Velho Oeste e da figura mítica do cowboy, com um general mexicano aparecendo em um carro vermelho no lugar do cavalo e metralhadoras e pistolas automáticas substituindo o tradicional revólver de seis tiros.

O mau presságio para os protagonistas do filme começa com a célebre cena quando entram em uma cidade e avistam um grupo de crianças que empurram dois escorpiões para um formigueiro para se divertirem com a imagem da violência no meio natural.

sábado, outubro 25, 2014

A "bala de prata" é sintoma do "tautismo" da revista Veja

Motivo de piadas e memes nas redes sociais, o verdadeiro remake do layout da capa de 2012 sobre a novela Avenida Brasil em mais uma “bala de prata” da revista “Veja” (matéria de capa sobre suposta denúncia de que Dilma e Lula sabiam de todos os esquemas na Petrobrás) é muito mais do que falta de criatividade ou preguiça de uma revista que definha financeiramente. É um sintoma do “tautismo” (tautologia + tautismo), fenômeno de fechamento da mídia em si mesma, a tal ponto que desaparecem as diferenças entre ficção e não-ficção, telenovela e notícia. A própria resposta dada pela “Veja” às críticas comfirma aquilo que pretende negar: através de um raciocínio tautológico diz que os acontecimentos são verdadeiros porque “teimosamente” têm relevância eleitoral... e por isso sempre acontecem na reta final das eleições!

O programa Redação Sport TV recebeu na semana passada o ex-presidente do Fluminense Francisco Horta. Famoso nos anos 1970 por ter montado a chamada “máquina tricolor” na base do “troca-troca” (intercâmbio ao invés de compra de jogadores), ele era entrevistado por André Rizek e Xico Sá. Para demonstrar a relevância do entrevistado, foram mostrados para os espectadores fac-símiles de edições do Jornal O Globo da época, com manchetes sobre o ex-dirigente.

Rizek, então, passou a fazer uma rápida contabilização do número de manchetes que o Fluminense gerava no jornal entre 1975-77. Para o jornalista, o sucesso da estratégia de Horta passou a ser discutido não pela sua contribuição para o futebol brasileiro, mas pela capacidade de Horta tinha em produzir manchetes para O Globo. Auto-referência: o jornal toma a si mesmo como medida para avaliação da realidade. O jornalista passou a confundir relevância midiática com relevância histórica.

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