sexta-feira, agosto 01, 2014

"La Jetée"´foi o marco da viagem no tempo no cinema

O filme de média metragem francês La Jetée (1962) do diretor Chris Marker foi uma das obras que mais influenciaram a cultura atual: da literatura, rock ao cinema de ficção científica como “Os 12 Macacos” de Terry Gilliam, “Red Espectacles” de Momoru Oshi ou “Em Algum Lugar do Passado” de Richard Matheson. Pela primeira vez na ficção científica a viagem no tempo é explorada de forma proustiana como memórias induzidas por estados alterados de consciência. Em um mundo pós III Guerra Mundial, um homem com uma recorrente imagem da infância de uma misteriosa e bela mulher é submetido à experiência de viagem no tempo por meio de drogas como esperança de encontrar no passado um meio de salvar a espécie humana. Mas lá ele encontrará mais do que isso. Filme sugerido pelo nosso leitor Daniel Cruz de Souza.

“Essa é a história de um homem marcado por uma imagem da sua infância”. Assim abre o filme La Jetée do diretor Chris Marker, cuja influência transcendeu o gênero ficção científica ao reformular o conceito de viagem no tempo, como também encontrou conexões na filosofia, rock e teorias conspiratórias.

Falecido em 2012, o francês Chris Marker foi fotógrafo, documentarista, ensaísta e artista multimídia. Estudou filosofia sob a influência do existencialismo de Sartre, associou-se à resistência francesa na Segunda guerra Mundial e como documentarista viajou por muitos países socialistas. Mas foi a partir do filme de média metragem La Jetée (30 minutos de duração) que passou a ser conhecido internacionalmente. Sua história sobre uma experiência de viagem no tempo num futuro pós-guerra nuclear foi a inspiração para cineastas como Momoru Oshi (The Red Spectacles, 1987) e Terry Gilliam (Os 12 Macacos de 1995, onde o diretor praticamente reconta a história de Marker e a transforma em longa metragem).

O tema de um protagonista cuja viagem no tempo se faz a partir da imagem da infância de uma mulher misteriosa no terminal do aeroporto de Orly em Paris, foi inspirar músicas como Vision do líder da banda de rock progressivo Van Der Graaf Generator Peter Hammill (“eu tenho uma visão de você/trancada em minha cabeça/pegue meus tormentos/pegue minha mão/e não me deixe ir/deixe-me morrer em seus braços/e assim a visão não se quebrará...”).

Além disso, Chris Marker lançou as bases para a exploração cinematográfica PsicoGnóstica - categoria de filmes gnósticos que mostram protagonistas presos em mundos criados pelas memórias, sonhos lúcidos ou limbos entre a vida e a morte.

Isso sem falar no sincronismo entre o filme e teorias conspiratórias: a possibilidade da viagem no tempo a partir das memórias com conjecturas conspiratórias do famoso Projeto Montauk: suposto projeto secreto empreendido pela inteligência militar dos EUA nos anos 1960-70 com experiências de intervenção psíquica por meio de drogas e equipamentos eletrônicos para fins de espionagem e interrogatórios. Mas o efeito colateral teria sido a descoberta da possibilidade da viagem no tempo através da consciência. Essa é a ideia por trás de filmes como O Efeito Borboleta (2004) e Vanilla Sky (2001).

O Filme


A história é contada inteiramente através de sequências de fotografias fixas como fosse um mix de foto-romance e cinema, numa interessante intertextualidade. Às vezes as imagens se encaixam em sequência para compor uma cena fragmentada, e outras vezes fazem saltos para o passado e futuro, compondo uma realidade em tempo real. A técnica é surpreendentemente eficaz e extremamente cinematográfica, se encaixando perfeitamente no tema da memória: cada foto é uma imagem em si, como memórias armazenadas de um herói sem nome que ele acessa como se navegasse em um museu interior – não é esse senão o tema de filmes psicognósticos como Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004) e Vanilla Sky (2001)?

O filme inicia com as imagens de uma mulher misteriosamente bela no terraço do aeroporto de Orly em Paris, horas antes da eclosão da III Guerra Mundial que destruiria a cidade numa grande explosão nuclear. São imagens da infância, que o protagonista nem ao certo sabe se são reais ou algum mecanismo de defesa psíquico para se proteger da tragédia que se sucederia.

Num planeta quase arrasado, a espécie humana ficou condenada a viver em túneis à esperança da sua própria extinção. Sem poder encontrar fontes de alimentos ou energia no espaço, restava apenas o tempo: buscar ajuda no passado ou no futuro. Iniciam-se experiências de viagem no tempo por meio de estados alterados de consciência induzido por drogas que trazem “ondas do passado e do futuro” para que o sujeito mergulhe nas memórias e através delas faça a consciência viajar no tempo. Porém, o trauma da guerra parece ter danificado as memórias – tema caro para um diretor que vivenciou a II Guerra Mundial.

Mas o protagonista sem nome demonstra ser a cobaia ideal para o experimento pela sua recorrente imagem da mulher misteriosa da sua infância. Dopado e em estado alucinatório retorna àquela mulher, criando “um tempo sem dor ao redor”, um estado de devaneio sem distinguir claramente se está sonhando.

O tempo proustiano


A grande novidade que La Jetéel trouxe e que representou o divisor de águas no campo da ficção científica foi a exploração proustiana do tempo. Para o escritor francês Marcel Proust, principalmente na sua obra-prima Em Busca do Tempo Perdido, Tempo e Memória são a mesma coisa: uma hora não é apenas um período de tempo quantificável em minutos e segundos. São também perfumes, sons, projetos e climas. A memória involuntária trazida, por exemplo, por barulho de talheres ou do martelo tráz o tempo em estado puro, reviver o passado como estivesse aqui e agora.

O tempo não é mais um lócus para onde deslocamos o corpo através de uma máquina ou dispositivo, mas momentos de alteração de consciência trazidos pela memória involuntária de uma flagrância, música, cheiro ou imagem. O protagonista sem nome do filme converte a vigem no tempo numa visita ao museu das suas memórias – prenunciando o tema do “sonho lúcido” de Vanilla Sky onde David Aymes vive através das lembranças afetivas uma vida virtual enquanto seu corpo esta em estado criogênico.

Temas gnósticos


E no labirinto das suas memórias está lá a enigmática beleza da mulher do aeroporto de Orli. Nesse ponto La Jetée explora dois temas da mitologia gnóstica: primeiro, o mito de Sophia, o “aeon” responsável pela transição do imaterial para o material, aquela que confere ao mundo físico dinamismo e vitalidade. Mas também observa os homens (que inconscientemente são portadores da fagulha de luz espiritual) e deseja que eles alcancem a gnose – no filme, a memória recorrente de Sophia que o fará se libertar do mundo físico no final.

O segundo é o paradoxo do futuro não existir, e de o tempo se consistir pura e tão somente na necessidade de relembrar aquilo que foi perdido. La Jetée constrói a estrutura do tempo como uma espécie de fita de Moebius, tão explorada em filmes atuais: o paradoxo espacial que cria uma figura paradoxal cujas propriedades abolem o principal de orientação (não possui o lado de “dentro” e de “fora” como uma fita normal). Sua convergência e continuidade formam um paradoxo espacial onde a torção cria uma fita de apenas um lado. A fita torce em si mesma, formando um continuum tempo-espaço fechado onde se volta sempre para o ponto de partida.

Pela mitologia gnóstica o tempo não existe, daí a grande importância ao passado e à infância, momento idílico onde a ilusão do tempo ainda não havia contaminado a percepção e a mente. Do tempo-memória passamos ao tempo-esquecimento, representado no filme pela III Guerra Mundial nuclear que destrói as memórias, criando as dificuldades para as viagens no tempo.

No ápice do filme quando herói anônimo e gnóstico sabe que ele é apenas uma cobaia dos cientistas e será exterminado, mergulha no limbo das memórias. Viajantes do futuro oferecem para ele a possibilidade de saltar para frente e viver em um mundo pacificado. Mas ele prefere ficar com a mulher do aeroporto de Orli (Sophia) das suas lembranças da infância.

 Outra grande virtude do filme é também a ironia metalinguística: filme é composto por fotos estáticas, momentos fragmentados que no fundo representam a própria natureza das nossas memórias: memórias voluntárias, involuntárias e déjà vus são esforços do nosso psiquismo em tentar montar uma continuidade, uma coerência que nos faça trilhar o caminho de volta. Outro filósofo francês, Henri Bergson, falava que o funcionamento da nossa mente se assemelharia a uma câmera de cinema: no fundo são frames fragmentados que criam uma ilusão de movimento. Para nós o tempo foi a ilusão criada, tal qual o movimento no cinema.


Rever La Jetée é também a oportunidade de descobrirmos onde estão as origens do gnosticismo pop do cinema atual de filmes como Matrix, A Origem ou Os 12 Macacos. E como os diretores atuais conseguiram tornar compreensíveis para as massas complexas noções filosóficas desenvolvidas em filmes experimentais e artísticos como La Jetée.



Ficha Técnica


Título: La Jetée
Direção: Chris Marker
Roteiro: Chris Marker
Elenco: Etienne Becker, Jean Négroni, Hélène Chatelain
Produção: Argos Films
Distribuição: Aurora
Ano: 1962
País: França

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