terça-feira, dezembro 20, 2016

Tautismo da Globo ainda não engoliu vitória de Trump


A vitória de Donald Trump pegou de surpresa a mídia internacional. Mas para jornalistas, comentaristas e colunistas da Globo foi devastador. Colocou em xeque o tautismo (autismo + tautologia) da emissora – a maneira pela qual a Globo interpreta a realidade que está além dos seus muros a partir da descrição que ela faz de si mesma. O triunfo de Trump parece que desmentiu o que a emissora entende como o seu destino manifesto: cobrir como a História cria fatos exclusivamente para a Globo transmitir. Mas o que acontece quando a História contraria as apostas da emissora? Tenta encaixar aquilo que é dissonante no seu roteiro, projetando nos outros países as mazelas brasileiras que a própria Globo ajuda a criar. Torce para que o roteiro pré-fabricado pela emissora também dê certo nos outros países. Um roteiro dividido em três atos: o “clima de incertezas”; o “caos”; e a “virada de mesa”. Com direito a um ato adicional: a vidente que disse que Trump “será o fim”.

A TV Globo é tautista. Isso quer dizer, entre outras coisas (metalinguagem, auto-referência etc.), que a Globo interpreta a realidade exterior de acordo com a descrição que a emissora faz de si mesma – sobre o conceito de “tautismo” clique aqui. E como a Globo descreve a si mesma? Com uma espécie de destino manifesto no qual os fatos Históricos acontecem apenas para que a emissora possa transmiti-los.

Era a secreta convicção do falecido proprietário do Grupo Globo, Roberto Marinho. O que lembrava a resposta dada por Napoleão ao seu general que insistia em alertar sobre as circunstâncias desfavoráveis para uma campanha determinada: “Bah! Eu faço as circunstâncias”.

Marinho sempre teve o timing correto para apostar no cavalo certo e criar as próprias circunstâncias mediante a chantagem midiática. Isso acabou contaminando os seus jornalistas, comentaristas e colunistas que sempre (excetuando-se a saia justa do desembarque tardio da ditadura militar e do governo Collor) viveram situações confortáveis de apenas justificar ou racionalizar aquilo que o seu patrão já havia anteriormente decidido e jogado no xadrez da política.

Assim como, com o cast de atores, artistas e jornalistas que a Globo possui, facilita o trabalho da produção de arrumar todo dia convidados para os programas matinais de entretenimento.

Mas o que acontece quando os fatos históricos teimam em contrariar uma aposta feita anteriormente? É nesses momentos que os atos falhos tautistas afloram ao vivo e em cores.

Roberto Marinho sempre apostou no cavalo certo?

Rostos perplexos e lívidos


Como ocorre nesse momento com o episódio da vitória “inesperada” do empresário midiático Donald Trump nas eleições presidenciais dos EUA.

Os rostos “passados” e perplexos dos correspondentes da Globo News nos EUA foram merecedores, no mínimo, de uma curiosidade antropológica - principalmente a lívida Carolina Cimenti (aquela que nas convenções do Partido Democrata mais parecia uma turista na Disneylândia sem conseguir fazer uma consideração mais objetiva sobre o evento), ao saber os resultados das eleições norte-americanas.

As primeiras reações foram acachapantes, entre pânico e preocupação, mostrando o modus operandi de uma emissora acostumada à criação napoleônica das próprias circunstâncias: “mercados pegos de surpresa” (sim! Sempre o mercado, esta entidade senciente com humores imprevisíveis) e “dólar sobe em consequência da vitória de Trump”.

Após retomarem o fôlego e se recomporem, a Globo pôs em ação um roteiro bem conhecido entre nós aqui no Brasil: primeiro ato: o “clima de incertezas”; segundo ato: caos! As ruas são tomadas por ondas de protestos que começam pacíficos e depois viram quebradeira; terceiro ato: denúncias de interferências externas e especulações em torno de possível virada de mesa através de alguma brecha, sempre “constitucional”.

Previsível reação tautista: embora a realidade externa ao sistema seja mutante, qualquer dissonância será sempre encaixada dentro de um modelo padrão de input, que, afinal, torna o sistema coeso e fechado em si mesmo.

Porém, essa vitória parece ter sido tão acintosa à auto imagem que a Globo criou atos adicionais para criar mais impacto, chegando às raias da paranormalidade e esoterismo, como veremos adiante.

Fátima Bernardes: "É um pesadelo... o mundo está com dois pés atrás"

Pauta da geopolítica antiterror


O jornalismo internacional da Globo sempre foi fiel às pautas das agências internacionais. Mas, principalmente após os atentados do 11/09, alinhou-se cegamente à geopolítica antiterror imposta pelo governos norte-americanos, reproduzindo acriticamente as versões oficiais e torcendo pela captura e morte dos terroristas islâmicos feios, sujos e malvados. Algo parecido quando Hilary Clinton e Obama assistiram ansiosos, através de um telão numa sala de guerra, as imagens do estouro de um esconderijo de terroristas no Paquistão e a suposta morte de Osama Bin Laden em um quarto escuro e imundo, em 2011.

Por exemplo, poucos dias após os atentados de 2001 nos EUA, a Globo já fazia matérias “investigativas” sobre células terroristas na Tríplice Fronteira – Brasil, Argentina e Paraguai. Supostamente, as mesmas que mais tarde ameaçariam a vida de todos nas Olimpíadas Rio/2016, segundo o ministro da Justiça Alexandre de Moraes. Prontamente repercutido pelo jornalismo Global.

Mas o tautismo faz da Globo mais realista do que o próprio rei, no caso atual da vitória de Donald Trump. Vamos detalhar o roteiro tautista que a emissora quer projetar para o mundo. Afinal, se esse roteiro foi tão bem sucedido na política brasileira, pode se tornar um ótimo filtro para traduzir qualquer realidade que a desafie.


(a) Primeiro ato: clima de incertezas


A política norte americana é previsível, binária. Criou um sistema eleitoral complexo, indireto, sólido e incompreensível para nós brasileiros – e principalmente para o tautismo da Globo. Um sistema de alternância entre Republicanos e Democratas (em média, a cada dois mandatos de um, entra o outro), apesar da existências de outros partidos que concorrem às eleições como o Partido Verde, o Partido Libertário, Partido da Constituição, entre inúmeros.

Como o Cinegnose vem apontando desde o ano passado, o momento atual é de desvalorização dos político e da política e o crescimento de candidatos supostamente apolíticos e midiatizados, com o discurso da gestão e meritocracia. As bravatas de Trump na campanha eleitoral foram marqueteiras e previsíveis, assim como seus muxoxos na TV no reality O Aprendiz.

  Levaram tão à sério da ideia da construção de um muro entre EUA e México que provavelmente devem esperar até hoje a realização das profecias de Nostradamus. Não sabem brincar...

Mas para os atônitos comentaristas e correspondentes internacionais da Globo, Trump é “um aventureiro”, o “retrocesso”, responsável pelas “incertezas” que deixam “apreensivos” essa entidade etérea chamada mercado.

Se o dólar subia e a Bolsa de Valores caia em tempos recentes, era porque a economia brasileira era inconsistente e criava insegurança para, de novo, o mercado.

Agora, sobe e cai pelas incertezas criadas por um “retrocesso” externo. Outros comentaristas repetem como papagaios afirmações fora de contexto de líderes europeus de que Trump é o “novo Brexit”, fazendo temer o futuro até da União Europeia.

E o encontro de Nigel Farage, líder do Brexit no Reino Unido, com Trump só assanhou ainda mais os arautos do caos do jornalismo global.

E para completar, uma perplexa Fátima Bernardes abandonou o otimismo matinal e sentenciou em seu programa: "o mundo está com os dois pés atrás...".

À esquerda: protestos anti-Trump segundo o Portal G1; à direita foto da Agência O Globo de 7/10/2014

(b) Segundo ato: o caos


Nos dias que sucederam o anúncio da vitória de Trump, os telejornais globais, principalmente Globo News, começaram a repercutir e repetir insistentemente imagens de protestos isolados: “Vitória de Trump gera protestos nos Estados Unidos”, era a manchete repetida na TV e Internet, com a indefectível foto de um manifestante em contra luz com um carro tombado e incendiando ao fundo.

E com previsível narrativa: era uma vez uma manifestação que começou pacífica, mas baderneiros surgiram e começaram a jogar pedras, quebrar vitrinas e incendiar...

Já vimos esse tipo de retórica jornalística na cobertura da grande mídia nos protestos nas ruas brasileiras em 2013 e 2014. Centenas pareciam virar milhares. Protestos isolados em campi universitários (Califórnia e Oregon) viravam protestos nacionais. E logo na Califórnia, Estado que foi capaz de eleger o ator republicano Arnold Schwarzenegger...


(c) Terceiro Ato: Virada de Mesa


O caos nas ruas e a insegurança econômica poderiam fazer mudar de ideia delegados republicanos que formam o Colégio Eleitoral que formalizará a vitória de Trump?

Matérias “investigativas” do Globo News desde a semana passada começaram a especular o possibilidade de “delegados dissidentes” mudarem de ideia e o Colégio Eleitoral não fazer a ratificação definitiva da vitória de Trump. 

Desmentida ontem por uma jovem correspondente nos EUA que anunciou, em tom de monótono desapontamento, o anúncio da ratificação da vitória de Trump pelos delegados. Para depois ressaltar conformada que nunca na história do país um colégio eleitoral deixou de ratificar a vitória de um candidato.

De repente, o modelo de Democracia e Justiça para o mundo (como sempre defenderam os comentaristas da Globo, principalmente depois dos sucessivos reveses dos candidatos à presidência apoiados pela emissora) transformou-se em “obsoleto” e “anti-democrático” pela “distorção” entre o voto popular e o voto do Colégio Eleitoral.

E, claro, entram na cena os russos. Sempre eles. O presidente da Rússia Vladimir Putin, em pessoa, teria comandado a ação de hackers para roubar e-mails do Partido Democrata para usá-los contra a candidata Hillary Clinton. Quem acusa é a CIA e o FBI. E o chamado “Pizzagate” (suposto envolvimento de Hillary com uma rede de pedofilia cujo centro seria uma pizzaria em Washington) que, claro, teriam as digitais russas.

O verdadeiro muro (esse sim, verdadeiro) que a Globo criou em torno de si através do tautismo é tão alto e espesso que seus jornalistas tentam a ver em outros países as mesmas fragilidades das instituições democráticas brasileiras. Torcem para que o roteiro pré-fabricado pela emissora dê certo nos outros países.


(d) Ato adicional – Trump é o “fim”, diz vidente!


E agora para o povão. Afinal, não apenas assinantes de um canal pago devem entender que aquele que ganhou e a Globo não gosta, não pode levar!

O jornal popular carioca Extra, do Grupo Globo, deu notícia em 11/11 sobre uma vidente búlgara chamada Baba Vanga, morta em 1996 e que teria previsto os atentados de 2001 e o tsunami de 2004. A “Nostradamus dos Balcãs” teria também previsto que o quadragésimo quarto presidente dos EUA não só seria afro-americano como também seria o último antes do “fim”: o próximo presidente fatalmente levaria o país para conflitos “entre Norte e Sul” até o “fim” – clique aqui.

E o pior é que essas coisas começam a incendiar a imaginação da Internet.

Agora falam que outro vidente (um tal de “T Chase” no seu canal no YouTube) teria previsto uma invasão alienígena para 2017 que começaria a Terceira Guerra Mundial. Culpa de quem? Claro, Vladimir Putin e os russos que aproveitaram o ensejo para criar uma guerra! – clique aqui.

Em síntese: o jornalismo da Globo não consegue falar sobre nenhuma realidade internacional, a não ser projetar nos outros países as mazelas brasileiras que a própria Globo ajuda a criar.

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